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Saltos sem altos

Saltos sem altos

Vantagens de não ter empregada

Estava eu este fim de semana no meu momento de instrospeção semanal, sozinha em casa a aspirar/esfregar/varrer/limpar/sacudir/bater, quando penso para mim:

Pobres almas que têm empregada.

Isto num daqueles momentos em que começamos a ver o caos a ganhar um espécie de ordem, aquele tipo de ordem que só o dono do caos compreende. São momento de reflexão intensos, estes em que me atiro à bodega de uma semana como se não houvesse amanhã. Em primeiro lugar, saberão vocês, pessoas que aos sábados de manhã têm como dilema a escolha do lugar do brunch, o PRAZER absurdo que uma pessoa sente quando mete o aspirador a trabalhar numa sala não aspirada há horas suficientes para ouvirem aquela sonata INACREDITAVEL das porcarias a entrar aspirador a dentro???

Quem não conhece este tipo de detox de alma é infeliz, só pode. Não há sensação de satisfação e concretização maior do que aquele brhbsbdughkjasdbKSBbrhjbasdb que fazem as miglhas, pedrinhas, areia, paus e caruma a serem implacavelmente sugados pelo aspirador. Já não falando do climax vitorioso pós sonata: meter o pé descalço no chão E NÃO SENTIR UM UNICO GRÃO DE AREIA!

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(sonata ao luar)

Em segundo lugar, para quem precisa de uma tonelada de estímulos para se sentir minimamente satisfeito na vida - um spa, um almoço num restaurante com 7 estrelas michelan, etc etc etc -  vou-vos dizer, que eu sou amiga e acho que este mundo está a ir na direção errada.

Está tudo mal.

Está mal por várias razões, e a primeira é porque, enfim, é caro. Uma pessoa mete a pata fora de casa e, PIMBA, já está a pagar. A segunda... ora eu sou uma mulher naturalmente exausta, que eu sei que sou, mas vou-vos dizer, antes esfregar 47 azulejos da cozinha do que viver nessa permanente corrida para combater a insatisfação, num mundo cada vez mais (irrealmente) instagramavel. Esqueçam filhos, que canseira. Satisfação pura é a de estrear uma esfregona nova.

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(#eternamenteinsatisfeitos)

Em terceiro lugar, e agora mais pedagogicamente falando. Não ter empregada é uma lição de vida para os pequenos monstrengos que temos em casa. É não só porque inevitavelmente os pomos a colaborar connsoco - mais não seja a içarem as pernocas para passarmos a esfregona por baixo - mas também porque eles vêm uma coisa que esta era parece querer ocultar. Viver dá trabalho, ter coisas dá trabalho, conseguirmos o que queremos dá trabalho. Na verdade, são precisamente as coisas que nos dão trabalho, que nos ensinam a valorizar devidamente este amontoado de bençãos que nos chovem no colo diariamente, e que tantas vezes não somos capazes de ver. Coisas essas que podem ser tão simples como obervar um vidro da janela da sala de tal forma imaculdo que leva um ou dois passarinhos ao engano e inevitável e descomunal cabeçada. Ainda que este vislumbre de limpeza dure apenas. DOIS. MINUTOS.

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O poder das rotinas

Olá. O meu nome é Ana sem saltos e eu sou a BOSS das rotinas.

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(obrigada, obrigada, obrigada)

Esta é uma característica minha, imagino eu que genética, de tal forma me está entrenhada no ADN.

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(eu a planear rotinas com cerca de 8 anos)

Psicanálises à parte, as rotinas podendo parecer uma coisa que sobrecarregam a vida de ... tédio, a verdade é que a mim dão-me segurança. Sou tipo os putos, gosto de saber o que vai acontecer a seguir, embora uma boa surpresa me caia sempre bem no bucho.

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(isto sou eu perante uma surpresa daquelas mesmo boas)

Falando em putos, e contextualizando vossas excelências num pequeno resumo da minha (super fashionable) vida. Tenho dois filhos, uma casa amorosa e (graças a deus) pequenina, um cão, um piqueno jardim, alfaces plantadas, cada filho na sua escola com uma hora de volta para os apanhar aos dois, um já está no 2º ano, trabalho, não tenho empregada, e lidei com muitos anos de privação de sono. Isso faz de mim o quê?

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(eu a pensar que tenho de ir apanhar a roupa antes que caia a cassimbada noturna)

Nada, filhos, faz de mim uma mulher como tantas outras neste mundo.

Cada qual tem as suas armas e a minha para sobreviver ao caos e à perfeita anormalidade do dia apenas ter 24 horas, é a ROTINA. A rotina tem poderes sobrenaturais, principalmente sobre as crianças. Eles barafustam, refilam, levam-me à loucura com aquele filhodamãe daquele "não" sempre na ponta da língua, MAS, a verdade é que saberem, por exemplo, que antes do banho não há brincadeira,  ajuda-os a eles a não levarem sovas diárias, e a mim a conseguir sobrevoar sobre o tempo e tê-los lavados, brincados, cheirosos, jantar pronto e devida mini no bucho antes de começar a berraria do costume "TENHOFOOOOOOME".

Todos os dias acho que não vou conseguir, que não tenho força, ai jesus que porra vem a ser esta da roupa suja se multiplicar à velocidade da luz, e se não eu lhes desse banho, e se jantassemos pistachos, e se eu fechar os olhos e fingir que ESTA REALIDADE NÃO É MINHA LALALALLA? Mas depois consigo. E ainda que de avental, luvas, carrapito no alto da mona, e dores no peito de um ou dez dois gritos, a verdade é que me sinto sempre super poderosa por conseguir... o que toda a gente consegue.

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Não interessa.

Todos os dias é igual mas todos os dias são um desafio. E eles crescem, e crescem, e não tarda têm pelos no peito e rebentam-me com o stock de sagres em casa, por isso é aproveitar as pequenas magias que vão surgindo a meio destas rotinas às vezes catastróficas e duras de levar em frente.

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Eles precisam de segurança, e eu também.

 

O papel dos avós na era moderna (e sempre)

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(é mais ou menos isto)

Ah a viagem que eu fiz agora na memória... Casada de fresco, cheia de planos e vontades, a planear uma extensa família de 6 filhos...

<3

E eu, super sábia e capaz, sem entender a dependência dos pais que via de tantas amigas para o mais básico dia a dia com filhos... Não senhor, hum hum, então se uma pessoa se atira nisto de ser mãe/ pai, tem de assumir as responsabilidades da coisa e não pode sobrecarregar os avós que já tiveram o seu papel nas nossas vidas.

#coraçãoaosestoiros.

POIS.

Bom, o que vale é que eu tenho um anjo da guarda vidente que, sem eu saber, me trouxe para perto da minha mãe aquando do nascimento do primeiro dos meus seis dois filhos. Porque, vou-vos dizer sem qualquer tipo de embaraço ou vergonha, EU PRECISEI DESESPERADAMENTE DA MINHA MÃE! E isto porquê? Porque, amigos, a nossa vida não é fácil. Esta coisa de conciliar os 3589 papéis que temos de desemprenhar impecavelmente, a começar pela dualidade maravilhosa e tão debatida maternidade/carreira emprego, não é para meninos. Somos uma espécie de hulks da vida moderna, só que escanzelados, com olheiras e exaustos, a saltitar de um lado para o outro e sempre em atraso.

Para começar, o nascimento da cria. AHHHHHH, que momento bonito, sim senhores. O cheirinho, as mãozinhas, os barulhinhos, os lacinhos, é tudo muito mágico e maravilhoso, que é, mas depois há detalhes que não sabiamos. Tão básicos como, sei lá, tomar banho. Estão a ver aquela coisa mundana do despe, entra no duche, lava, sai e seca? Pois bem, depois de nos nascer um filho, passa uma verdadeira guerra dos tronos com todas a temporadas a ocorrer em simultâneo. Eu não sabia disto, NINGUÉM ME AVISOU!

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(eu depois de um banho e com o amaciador quase (QUASE) totalmente tirado da crina)

Depois vem tudo o resto. Uma pessoa trabalha, e já se sabe, esta sociedade é muito evoluída e  dada à família, portanto a facilidade de concilar trabalho com creche-doenças-noites mal dormidas-reuniões de pais-doenças-dia da mãe-doenças-dia do pai-consultas-dia da avestruz perneta-doenças - é perfeitamente harmoniosa e fazível.

#soquenão.

Principalmente com aqueles olhares de esguelha e comentário entre dentes - boas vidas, sim senhora! -  de pessoas que entram três horas depois de nós, almoçam em mais duas horas do que nós, quando saímos (vejam bem que coisa estranha) a horas e em modo fúria para uma correria desesperante de fim de dia.

<3

Para além disso. Convenhamos, o papel dos avós no crescimento de uma criança é não somente "útil" mas também aquele açucar necessário para uma infância devidamente equipada de fadas, sopas com pera batida em biberões, massagens na nódoa negra invisível no sofá, 15 meias porque está frio, chuchas fora de horas, e ovos kinder antes do jantar. E é justo. É mais do que justo. Todos nós precisamos dessa magia, principalmente numa era em que os desgraçados dos pais voam de segundo em segundo para conseguir cumprir com tudo.

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(Há melhor coberta do que a encharpe de uma vóvó?)

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(há melhor chapéu do que uma fralda?)

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(ou então a pachorra para tintas num dia de doença com a casa virada de pantanas, um bebé ainda à espera de almoço, e uma noite de três horas de sono?)

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(enfim, perceberam a mensagem, certo?)

Momo - novo terror na internet

Adenda: As imagens são assustadoras, mas infelizmente o que existe por aí é assustador.

Na altura do Halloween (alguém um dia ainda me vai explicar o porquê da vinda desta tradição americana para o nosso portagalinho do pão por deus), a rebaldaria lá em casa de vampiros, monstros, zombies e bruxas foi qualquer coisa. Os miúdos entram num frenesim meio marado e só falam em sangue e facas e fantasmas e horrores. Fica difícil de controlar, o mood está instalado por esse mundo fora: nos anúncios, nas lojas, nos desenhos animados, nas escolas.

E uma pessoa vai e rende-se.

Ora foi nesta altura que o meu recém nascido mais velho me apareceu lá em casa a falar da Momo. Vinha no carro a emprenhar os ouvidos do irmão, Momo para aqui, Momo para ali, e eu, longíssimo de saber o que é isso da Momo, e mergulhada naquele modo piloto automático de fim de dia, não liguei peva.

Chegam a casa, correria do costume, e vai que o miúdo liga a televisão e pesquisa Momo no youtube (regra lá de casa - youtube só na televisão para a mãe e o pai saberem sempre as trampas que eles vêm).

Ora aparece-me isto:

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Graças a Deus eu estava na sala nesse momento e não houve tempo para carregar em nenhum vídeo. Desliguei automaticamente a televisão aos guinchos com eles.

O mais novo, claro está, para aprender a segurar numa faca ou para tirar uma meia sem mandar 4 cambalhotas para trás, são precisos quatro psicólogos, um terapeuta e três lambadas nas nalgas, mas para a merda, ah meninos, isso aprendem e decoram eles num ápice. Ficou obcecado com a boneca, só fala na boneca, e ainda hoje continua neste mood apesar da proibição de se falar nisso lá em casa.

- Como é que xe lê m-o-m-o.

_MANÉL!

E tem a criatura 4 anos benzadeus...

Na altura eu ainda achei que isto era só mais uma anormalidade do Halloween, e esta necessidade de se fazerem coisas horrorosas, que eu, #cinderelaforever, não consigo entender. 

Mas as conversas continuaram compulsivas, e às tantas o mais velho já dizia que era possível falar com a Momo, que ela ligava para as pessoas, que entrava nos jogos. Foi então que o google nos explicou o que era isto.

A Momo, originalmente uma boneca japonesa criada com base naquelas lendas que antigamente se contavam às crianças para adormecer, viu a sua imagem roubada por gente que ainda se vai descobrir o porquê de ter nascido, e foi utilizada num desafio do género da Baleia Azul. Lembram-se do que é isto? É um jogo que isola as crianças/ adolescentes numa realidade paralela e assustadora, e os leva, passo a passo ao suicídio.

A Momo entra nos jogos online estilo minecraft e para os que têm telémovel, contacta via Wahtsup com esta bonita imagem de perfil. Depois, incentiva os miúdos a magoarem-se, envia-lhe vídeos e imagens violentas, e pede provas da concretização dos seus desafios, ameaçando as crianças e as suas famílias.

Pelo que tenho lido por aí, ainda não há consequências efetivas deste jogo como houve no da Baleia Axul, mas, ainda assim, fomos falar à escola e alertar a professora, assustados principalmente pelo facto do meu filho saber que era possível comunicar com a boneca. 

O altera foi dado, e as ações necessárias foram tomadas.

Entretanto a boneca dispara novamente nas notícias aparecendo, aparentemente, a meio de um vídeo da Porquinha Pepa incitando as crianças a automutilarem-se. O castigo, caso não o façam ou contem aos pais, é a morte.

Ao que parece, o criador da boneca já a destruiu, depois de ter conhecimento da forma como a imagem da mesma estava a ser utilizada, numa tentativa de tentar sossegar as crianças que entretanto já vivem em pânico com isto.

Ora bem, não há palavras elásticas o suficiente para exprimir o horror desta porcaria. Como nos podemos defender disto? Nós pais, o que podemos fazer?

O meus filhos não têm telémovel nem jogam nenhum jogo online, vêm youtube na televisão e com supervisão, e ainda assim esta merda entrou-nos pela casa a dentro... Sem consequências, mas entrou.

Tivemos de conversar com os dois, e explicar-lhes que por de trás de uma boneca que nada mais é do que uma boneca, estão pessoas muito más, e das quais temos de nos saber defender. E que isto é apenas uma vertente dos perigos que se escondem na internet, esse mundo virtual que esconde caras e identidades.

De resto... temos de estar em alerta permanente. A nossa realidade é esta, não temos como fugir dela. Mas, juro, odeio-a, odeio mesmo.

 

 

 

Dia da mulher

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Clichés à parte, hoje celebra-se o útero, a força feminina, a elasticidade do músculo do nosso coração. E celebra-se, aqui em Portugal, depois de um grito que se fazia mudo há tempo de mais contra a violência doméstica, portanto, sem dúvida, a permitnência deste dia é quase cortante.

Sejamos mulheres, como queremos, quando queremos, tipo aquela senhora bestial ali em cima a bafar uma ganda flor <3. 

Sejamos francas, honestas, fortes, e já agora, menos putas umas com as outras.

Boa?

 

Feliz dia das Mulheres!

 

É preciso falar disto - Segurança Social, IEFP, e a audácia de sair do desemprego

Aviso: Conteúdo para maiores de idade, a minha pessoa está numa erupção de raiva e tamanha incredulidade que pode suceder estalar algum verniz.

 

Como sabe toda esta multidão que me lê, em junho do ano passado assinei a minha carta de alforria e parti rumo a liberdade e felicidade, longe da poluição lisboeta, verdetes bancários e outras iguarias que me estavam a estragar a alma de forma quase irremediável. Como sou doida, mas só QB, não vim de mãos a abanar (ainda que não tenha vindo rica de todo), e saí com direito ao subsídio de desemprego por ano e meio - esse belíssimo direito que tem quem descontou durante 11 anos.

Aconteceu, entretanto, surgir uma hipótese de trabalho a 3 minutos de casa e das logísticas de uma mãe desesperada, sem empregada nem grandes apoios, coisa que, nestas bandas, não é de todo abundante. O contra: Iria ganhar menos do que estava a receber como desempregada.

Vai daí, liguei para a Segurança Social para saber se existira alguma medida de incentivo para masoquistas como eu.

Palminhas, havia, chama-se:

Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

(Wow, vénia a nomes pomposos).

Depois de me informar sobre o que tinha de fazer, e para ter a certeza que teria tudo tratado aquando do recebimento primeiro mês de trabalho (em janeiro), lá vou eu com contrato assinado para o Centro de Emprego de Sintra despedir-me daquela gente e candidatar-me à referida medida.

Depois de algum momento de espera, lá sou chamada.

_ Bom dia. Venho comunicar a minha aceitação de uma oferta de emprego e candidatar-me à Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

_ ...

_ ....

_.....

_ HEIN??

 

Lá explico à senhora do que se tratava a medida, divulgada no site do IEFP. Dou de barato, eu percebo que aquilo seja uma estucha de informação, por norma desatualizada ou divulgada sem aviso nem devida formação aos trezentos e oitenta milhões de funcionários públicos a atender o povão português.

Responde-me sem me olhar e como se eu fosse uma atrasada mental:

_ Oiça lá, para receber não é aqui, nós não pagamos nada a ninguém. Tem de ir à Segurança Social de Sintra.

De sobrolho franzido digo-lhe que não é isso que está indicado no site (DELES), mas ela enxota-me dali para fora cheia de pressa para aviar desempregados.

Lá vou eu para a Segurança Social de Sintra.

Conhecem?

Ora bem, tirando o facto de estar inserida num palácio lindo, mas a cair aos bocados de podre, é, de resto, um verdadeiro antro de horrores. A média de espera para se ser atendido ronda, em dias bons, QUATRO HORAS. As pessoas têm o ar mais infeliz deste mundo e os funcionários estacionaram as carroças ali à porta em 1742. Há impaciência, bebés a chorar, falta de espaço, frio, e pior que tudo, uma incompetência de bradar aos céus. Mas aqui, leia-se a meados de dezembro de 2018, eu ainda não sabia disto. Estava cheia de esperança nestas medidas sociais, cheia de tolerância para esperas, cheia de boa vontade.

Depois de espera infindável lá sou chamada.

_ Bom dia. Venho comunicar a minha aceitação de uma oferta de emprego e candidatar-me à Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

_ ...

_ ....

_.....

_ HEIN??

Lá explico à senhora do que se tratava a medida, divulgada no site do IEFP, que já tinha ido ao IEFP e que de lá me tinham escorraçado para ali. Dou mais ou menos de barato, ainda continuo com um nível de tolerância positivo, e não me importo de lhes explicar aquilo que deveriam ser eles a explicar-me A MIM. A senhora manda uns cliques no rato, mexe numa papelada e dá-me um formulário tão genérico que tanto podia ser uma declaração para pedir a manutenção de uma parte do subsídio, como também poderia perfeitamente ser uma autorização para me levarem um rim. Lá venho eu com a papelada para casa, entrego aos novos patrões para carimbarem, e no dia seguinte parto rumo a SS de Sintra, ainda cheia de boa vontade: estou a tratar das coisas com antecedência e ainda não estou a trabalhar, maneiras que tenho tempo livre para me sentar horas a fio nas instalações da SS.

Ao fim de horas sou chamada.

_ Bom dia. Venho comunicar a minha aceitação de uma oferta de emprego e candidatar-me à Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

_ ...

_ ....

_.....

_ HEIN??

_ Está aqui o formulário que a sua colega me deu ontem.

Ela desata a aviar mais uns cliques, carimbos e rubricas, e entrega-me um papel a informar que o meu subsídio estava suspenso. Pergunto-lhe, ainda com alguma boa vontade, quando vou começar a receber.

_ Receber o quê?

Inspiro muuuuuito fundo e desato a explicar tudo outra vez. Ela rasga o papel com ar de mãezinha, que não era nada daquilo, que amor que estes cidadãos portugueses são, e manda-me escrever à mão num papel em branco uma declaração em que basicamente peço para me atribuírem o valor remanescente entre o que vou passar a receber empregada e o que estava a receber como desempregada. Ainda lhe falo do site, da medida, mas ela mantem o seu ar maternal, a olhar para mim como se eu fosse um pequeno pónei. Manda-me para casa sossegada.

Lá fui.

Constato, entretanto, que o meu subsídio foi suspenso na totalidade. 

A partir daqui a ramboiada foi total. Dezenas de telefonemas para a Segurança Social Direta, sempre com cerca de meia hora de espera até ser atendida, e cada qual com a sua informação:

. Quer era normal, que tinha de esperar (esta mania deste povão de ser impaciente na hora de receber).

. Que não sabiam o que era aquilo, melhor esperar.

. Novamente que era tudo normal que tinha de esperar.

Ao 1567º telefonema, já sem ter recebido o apoio no primeiro mês de trabalho, lá me dizem que era melhor eu ir novamente à SS onde tinha entregue a documentação ver o que se passava. Peço autorização à chefia e lá vou eu.

Cinco horas de espera amigos. CINCO FODA-SE. Isto já empregada, vale-me uma chefia amiga. Sou chamada, e explico o sucedido.

_ Ah, aqui não conseguimos ver nada, tem de ligar para a Segurança Social Direta.

_ MAS VOCÊS ESTÃO A GOZAR COMIGO???????????????

Escrevi uma reclamação à mão, volto para casa e desato a reclamar para tudo o que é site. Já não tenho tolerância, já não tenho paciência, já não tenho absolutamente porra nenhuma, só uma conta desfalcada por ter tido a audácia de concorrer a uma medida que supostamente incentiva a população a sair do desemprego. Como devem imaginar, estava mais confortável em casa, a escrever poesia à beira da lareira, com as refeições cozinhadas a tempo, miúdos apanhados cedo, e uma conta bancária mais choruda. Mas também fizeram questão de me dizer que agora, boca, se te despedes é que não tens direito a nada. Das 134 reclamações que fiz, respondem-me do IEFP a informar o que tinha de fazer, que era, basicamente, O QUE EU TINHA TENTADO FAZER PRIMEIRO, MAIS DE UM MÊS E MILHARES DE HORAS PERDIDAS ANTES.

Lá vou eu cheia de papelada para o centro de emprego (vale-me uma chefia amiga), mando um murro na mesa e peço para me fazerem aquela merda. Mandam-me para um gabinete de uma senhora muito simpática que lá me fez a candidatura, muito surpreendida com tanta incompetência.

_ Mais uns diazinhos e já não tinha direito a concorrer a isto.... - diz-me ela com carinho. 

Dizem-me, então, que o IEFP dá parecer até 15 dias úteis NO MÁXIMO. 

Até hoje, amigos. ATÉ HOJE E JÁ PASSARAM 24 DIAS úTEIS 10 HORAS, 52 MINUTOS E SEGUNDOS A CONTAR DE FORMA ASSUSTADORA!

Já liguei vinte vezes, já fizeram pedido de reforço interno, já reclamei, já fiz porra de tudo. Nada. Tenho de esperar. Mais um mês que passa sem receber o apoio.

Escrevo isto, primeiro para descarregar adrenalina, depois porque acho que esta merda tem de ser denunciada, somo nós que pagamos o salário àquela gente, não se admite esta falta de resposta e de compromisso. Ninguém é responsabilizado, o meu processo está numa gigante cloud da função pública, sem caras nem nomes para assumir as datas e compromissos.

E eu devo ser a única ET que se atreve a aceitar emprego quando poderia estar a mamar do estado sossegada em casa.

Isto revolta, descredibiliza, e faz-nos sentir completamente impotentes, sem meios para poder agir ou pedir justificações.

Aguardemos, até porque não posso fazer mais nada. Mas olhem, se alguém estiver numa situação parecida com a minha já sabem. Mantenham-se na mama do estado, que isto de ser honesto e trabalhador não compensa e sai caro. Muito caro.

 

 

 

 

 

Casamento e filhos

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Ora então assim à primeira vista, casamento e filhos parece daquelas correlações óbvias, uma coisa leva, inevitavelmente à outra, certo? Casamos, é suposto termos filhos, temos filhos e pressupõe-se que há ali algures um parceiro no crime.

BOM.

Ainda que esta relação pareça óbvia e devidamente apedrejada de ferramentas para que corra de forma natural e fluida, tipo, é suposto, é sonhado, é desejado, a verdade é que o casal leva uma tareia que parece ser impossível voltar a pormo-nos de pé. E isto, muitas vezes, tem a ver com expectativas. A ideia de um filho como fruto do amor, é romântica, é bonita, e, não deixando de ser verdadeira, cria uma série de mitos que começam a ser derrubados à bruta logo ali à saída da maternidade.

Leva o ovo. ASSIM NÃO. Espera, ele não está a respirar. Afinal está. Estás-te a rir do quê? COMO TE ATREVES A GOZAR COMIGO? Ai espera, pousa tudo, afinal já é hora de dar de mamar. Quero chorar. 

Enfim.

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(sovas à parte, é de facto uma coisa linda isto de ser/criar uma família)

Um filho sendo a melhor coisa que nos acontece na vida é também, e talvez por isso mesmo, o maior desafio de todos. E neste frenesim, em que a identidade própria acaba por ficar mais ténue com a falta de tempo no auge dos auges, as noites mal dormidas, as saídas de casa com tanta tralha que mais parece que vamos por 14 anos para o Afeganistão, a preocupação e atenção permanentes com as crias, o casal vai-se deixando ficar para trás. Porque estamos cansados. Porque uma frase não chega ao fim NUNCA. Porque, porque, porque. As coisas acontecem de forma gradual, por isso o importante é avançar de cornos para guerra sempre com a máxima presente:

I got your back.

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Parceria nisto, porque é exigente e leva fatias monumentais de nós mesmos. Se a luta de nos encontrarmos a nós próprios neste processo em que ao eu se junta a mat/paternidade, a de encontrarmos o outro pode ficar perigosamente para trás. E acima de tudo, muita humildade para assumir erros, pedir desculpas, pedir ajuda e agradecer.

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O vinho também ajuda.

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Vamos falar de treinos?

Alerta: dentro de mim mora uma lontra ociosa, devoradora de imperiais, pão alentejano, queijos e outras iguarias que tal. Não esperem um conteúdo oriundo daquelas ultra mega para lá de espetaculares mulheres de treinam em média 12 horas por dia, e quando despejam a máquina aproveitam para fazer agachamentos.

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(#sóquenão)

Em primeiro lugar, esta nossa era, vou-vos dizer, QUE PRESSÃO! Temos de ser bem sucedidos. E lindos. E acordar de manhã com aquele ar de unicórnio pestanudo dos filtros do instagram (juro que nunca percebi esses filtros, #assumidamentedemodé). E mamamos tofu pitalgado de chia e dizemos #delicious.  E corremos. E fazemos yoga. 

Wow. 

Bom eu não sou nada disso. Para terem uma ideia, quem me conhece desconfia que se não estou a beber uma mini pelo gargalo é porque estou grávida.

(#truestoy, e estava mesmo grávida)

MAS....

Não há como, esta onda saudável apodera-se de nós, e a verdade é que já não vou para nova e, a cima de tudo, fui eu que resolvi assumir a responsabilidade de colocar as duas pessoas mais importantes do universo neste mundo, maneiras que há que tê-los no sítio para levar essa responsabilidade até ao fim com o mínimo de dignidade. 

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Já tentei algumas vezes ginásios (tipo em 2010 e foi tão traumatizante que nunca mais voltei), também tentei correr (fortíssima, conseguia correr SEM UMA ÚNICA PAUSA cerca de 30 metros seguidos). Depois ainda houve uma fase em que fiz kundalini yoga (escusam, não vou falar disto). Até que descobri, há cerca de um ano atrás, a minha verdadeira vocação nisto de fazer exercício. Ora então aqui vai:

Sou ÓTIMA a andar a pé.

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(Calma.)

Quando digo andar a pé, não é só meter a pochete debaixo do braço para ir ao pão, é mesmo andar a pé. Saio de casa a passo rápido, e ala que se faz tarde durante cerca de 6 kms. Evidente que morar onde moro ajuda, e muito. O ar é fresco, há pardais e vejo o mar como grande recompensa, logo após uma subida dos infernos capaz de empedernir o mais flácido dos glúteos.

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(ei-lo)

Além disso, e para minha grande surpresa, a verdade é que... Adoro. Adoro mesmo, faz-me bem não somente a este corpo moribundo e intoxicado de inércia, mas, e talvez principalmente, à cabeça. E olhem que o turbilhão que às vezes por lá mora não é propriamente fácil de gerir, mas esta coisa que respirar bem fundo e desatar a oxigenar tudo como se não houvesse amanhã, epa tenho de dar a mão à palmatória, e é verdade, aquilo faz realmente muito bem.

Benefícios notados:

1. Já não tenho dores de costas dia sim dia não,

2. Ando mais direita,

3. Não sou a Carolina Patrocínio, mas já noto menos o descair das carnes.

Isto e ainda não endoideci de vez, que é sempre uma coisa boa.

 

 

 

O desafio de educar

Adenda: Em primeiro lugar, atenção, eu não sou psicóloga, nem doutorada, nem fiz nenhum estudo com 357 crianças, respetivos pais e animais de estimação. A premissa aqui é experiência própria - uma única mulher, com todas as suas infindáveis falhas e limitações, mãe de dois rapazolas e casada com um deus grego. Partindo desse pressuposto, vale o que vale, mas partilhar é bonito <3.

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(abençoado sejas, razão de viver)

 

Quando temos filhos, os desafios vão aparecendo de forma gradual. A natureza é uma senhora monumental mas muito sábia, e, por isso, primeiro vem a gravidez, preparando-nos subtilmente para a sova que lá vem: dores, enjoos, hormonas em estrondo, vontade de chorar, vontade de rir, vontade de chorar outra vez e um amor que começa a ganhar raízes no nosso coração tipo aloé vera, com os primeiros movimentos do bebé.

 

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(já alguem tentou desbastar esses belos catos? então expetrimentem.)

Depois eles nascem. 

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(Um minuto de silêncio por favor.)

Cada um fala de si maneiras que eu vou falar de mim. O QUE É AQUILO? O corpo dói, as noites confundem-se com os dias, eles choram, meu Deus, choram tanto e nós não sabemos porquê, o coração é esmagado pela possibilidade de falharmos, e, quer queiramos, quer não, falhamos mesmo. E achamos que não pode ser mais difícil.

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(eu a morrer de amor)

Ora se é verdade que é absurdamente difícil, também é verdade que o esgotamento nesta fase é maioritariamente físico. É o nosso corpo que não aguenta monumental tareia. Quer dizer, aguentar aguenta, que a natureza sabe o que faz, mas não sabemos bem como.

Depois eles vão crescendo. E quando achamos que "epa, sim senhora, já consigo respirar dormi 4:37 sem interrupções e ele já sorri para além de chorar. Sou espetacular.",

 começa, então, o coração a agoniar.

(fortíssima nas rimas)

Que merda vem a ser esta??? Eles sofrem? Eles erram? Eles caiem? Eles ESCONDEM-NOS COISAS???????

É verdade. Há aqui uma coisa importantérrima que vamos aprendendo (a mal, muito, muito, muito a mal):

Nem tudo depende de nós.

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(Fonix, e isto é que era completamente desnecessário mãe natureza.)

Ainda por cima, educar na nossa era é um desafio absurdo. Estamos conectados a todos os cantos do planeta, e cheira-me que a marte também, a informação tem a validade de meio milésimo de segundo, eles são bombardeados de estímulos e novidades que não estão preparados para receber.

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(Na verdade, nem sei que nós estamos).

Equilibrar a balança de:

1. Não quero que sejas um ET nerd

com:

2. Youtubers são uma bosta que enchem os vossos piquenos e sedentos cérebros de aprender tudo com um soberbo e valentíssimo nada

é uma tarefa que, vou-vos dizer, nem sei se Zeus himself estaria equipado de poderes suficientemente estrondosos para a desempenhar.

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(what the fuck??)

Mas as coisas vão-se fazendo com calma, e, principalmente, com muita humildade, que isto de ensinar não acontece sem aprendermos também.

(tirada de génio)

Eu vou tentando saltitar de prato em prato da referida balança, equilibrando os infindáveis desiquilibrios que vão aparecendo sem aviso. Para não me estatelar ao comprido, digo para mim como mantra:

A única coisa que lhes exijo é que sejam felizes. 

Para isso, amigos, e seja lá qual for a vossa premissa, temos de lhes dar o exemplo.

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Mudar de Vida

 

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(Título bonito, ou quê?)

Ora bem, começando por partes. O primeiro passo para mudar de vida ocorreu quando dentro da minha barriga despoletou aquele que viria a ser o meu primeiro amor de mãe. Foi na gravidez que optamos por sair de uma Lisboa antiga e castiça para nos movermos para o campo - não tão remoto que nos isolasse do mundo.

E assim foi, em plena gravidez, compramos uma casinha amorosa e a cair de podre, com terreno suficiente para triciclos e trampolins, mandamo-nos às obras como se não houvesse amanhã, e, dois dias antes do nascimento do primogénito, mudamos-nos para aquele que viria a ser o nosso lar.

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(Estás absolutamente certa de ti que ser hippie do campo me obriga a isto?)

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(Lar é muito mais do que somente casa.)

Facilita também o facto da senhora minha progenitora viver nestas bandas, ainda que, na altura dessa decisão, eu não fizesse a mais pequena ideia do quanto iria precisar do seu apoio.

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(amorosa inocência).

E se, inicialmente, a logística até era relativamente suportável, uma segunda gravidez apimentada pela ruína do banco onde trabalhavam despoletaram um grito em mim.

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(Oh diabo)

Ora gritos de dentro, a meu ver, não são coisas que se devam ignorar, e andei num vai e vem emocional até ser capaz de tomar a derradeira decisão.

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(Saio. Não saio. SAIO! Não, não saio.)

Mas quando a infelicidade começa a vir morar baixinho em nós, é urgente mudar o que nos faz mal. Maneiras que essa decisão deu-se definitavemente em mim em meados de 2017 mas só foi possível de concretizar no verão de 2018.  Lá vim eu para o desemprego para o campo com dois objetivos muitíssimo bem definidos, mas que, na verdade bem verdadeira,  são apenas e somente um. Ora façamos as contas:

Estar mais presente na vida dos meus filhos sem uma berraria desenfreada carregada de uma dose de remorsos capaz de abater um mamute voador

+

Dedicar-me a encontrar um caminho na escrita, aquela que é a minha primeira paixão

= a

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Ser feliz.

(Bonito, ou quê?)

Não nos podemos no entanto iludir. 

Este é um processo mais doloroso do que parece, porque traz consigo um medo que, fazendo parte da humanidade assim em geral, é um componente fortíssimo no meu ADN em específico: medo da mudança.

Os "e se's" que brotam feitos bolor são inacreditáveis.

E se eu não tirar o roupão o dia inteiro?

E se eu me isolar de vez?

E se eu embrutecer?

e o melhor de todos.

E se eu não for capaz?

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(ok, ok).

Logo se vê, este é ainda um processo a decorrer. Tipo vida, sabem? Só acaba quando morrer. Até lá...