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Saltos sem altos

Saltos sem altos

O flagelo da vida saudável

29.04.19, Ana sem saltos

Eu não sou uma mulher muito saudável, nem física nem psicologicamente. Atacam-me fúrias e medos obstinados, bebo mais minis do que água e sou uma fumadora cansada de tentar deixar de fumar sem sucesso.

O exercício físico é uma novidade relativamente recente na minha vida, e ainda assim, botemos um "lol" no que considero exercício físico. (caso são saibam, clicai com amabilidade aqui)

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(caminhadas <3)

 

Mas sou preocupada com a saúde. Tento ter uma alimentação saudável, sempre tentei, desde os meus tempos de adolescente obcecada com pregas - na altura invisíveis - na carne. Se primeiro era por vaidade, que sou mulher tremendamente vaidosona, com isto da idade uma pessoa vai amadurecendo e começo a ter chiliques de pânico com doenças. Idade e maternidade é uma soma perigosíssima, dá infinitos ao quadrado de preocupações.

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Sendo mãe de duas lontrinhas adoráveis que gostam mais de comer do que de respirar, temos lá em casa uma luta permanente para lhes incutir hábitos saudáveis. Não é fácil, mas vai-se fazendo.

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(refeições todos juntos, é um primeiro passo)

Podíamos seguir o nosso instinto básico, certo? Nada de muito complexo, comer muitas verduras, frutas, água, cautela nos hidratos, carne em moderação, etc. SÓ QUE NÃO. Ser saudável, para além de ser uma obsessão da era moderna, tornou-se também um desafio impossível de concretizar, tipo aquele chalenges de 30 dias para os glúteos. 

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(AHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHHAHAH AHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHHAHAHAAHHA HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHA HAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHHAHAH)

 

Então, os veggans. Para além de nos fazerem sentir verdadeiros hittlers da bicharada -  ASSASSINA, como consegues comer esse frango sem te lembrares de um pequeno pinto orfão? Consigo, facilmente, como diz o meu recém-nascido mais novo, mas ninguém precisa de saber. Atiram-nos à cara que os grandes males do corpo advêem da ingestão de carne e peixe. Só que depois não, isso afinal faz mal, muito perigoso, ou tens uma nutricionista ao teu lado constantemente a fazer-te medições aos glóbulos, ou corres o risco de virar ser amarelado e subnutrido. #aalfaceaocaracol

Então Paleo. Inversão de marcha assim à bruta, afinal a agricultura é que mata  regressemos à pré-história, sejamos humanoides que eramos antes dos cereais e couves, e 'bora tudo caçar melros e roer raízes de aloé vera. Mas depois também não, na verdade, qual era a esperança média de vida de um humano no paleolítico, sabereis gente que me lê? Consta que a velhice começava ali aos 20.

#soupaleolitica

#idosadesdeos20

E depois temos as redes sociais, valha-me Santo António das couvesflor, a sovarem-nos com informação PERMANENTEMENTE CONTRADITÓRIA UMA MULHER JÁ NÃO SABE PARA ONDE SE VIRAR!! 

Os legumes têm pesticidas, os peixes são pequenas acumulações de plástico, as vacas dão-nos cancro no colon, os frangos são hormonas, o aloé vera é mito, o kefir é só iogurte, e os lacticínios fazem alergias, o glúten mata, espera, não mata, mas onde não há glúten, afinal?, os ovos variam entre NÃOCOMASMAISQUEUM, e mama os ovos que quiseres que faz bem, beber vinho reduz doenças cardiovasculares, mas cuidado porque beber vinho dá enfartes, sumos detox são só verdes, pão é veneno.

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Hino: viver mata.

 

Posto isto. E tentando acalmar esta ansiedade que por vezes me invade, olhem, faço o que me diz o instinto e faço figas nas costas para que tudo corra bem. A minha avó tem praticamente 100 anos e é bem mais saudável que muitos de 20. Bom senso é a chave. Todo e qualquer extremismo não é, lá está, saudável.

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(atentem, há vinho, há pão, há peixe, e há meias e cuecas dos miúdos a secar. 95 anos disto, com muito mais classe que qualquer comum dos mortais, embrulhem.)

 

Os assassinos da leitura

23.04.19, Ana sem saltos

Ora então celebra-se a 23 do presente mês do calendário o Dia Mundial do Livro. Extremamente importante este dia, especialmente para mim.

Estava eu a pensar nisto quando me dou conta, assim de forma estupendamente racional, que já li muito, mas MUITO mais do que leio hoje em dia. Caramba, então afinal o que se passa com uma aspirante a escritora que subitamente deixa de ler?

Sempre adorei ler. Talvez seja um ciclo vicioso de quem gosta de escrever, mas a verdade é que um bom livro é daquelas coisas que me deixa verdadeiramente feliz. Aquela sensação de estar sempre a pensar no livro, desesperada que surja um tempinho para poder voltar a mergulhar lá para dentro, sabem do que falo? 

E se dantes devorava livros como quem devora cajus, a verdade é que hoje em dia estou bastante aquém do que gostaria. Achei, por isso, que era bom expor abertamente os assassinos da leitura. Sem medos.

  1. Filhos

lol. Bom quem me lê às tantas deve achar que eu não gosto de ser mãe, culpo a maternidade de tudo aquilo que não consigo fazer. Não é bem assim, atenção, tenho uma tendência genética para o exagero, deem sempre um ligeiríssimo desconto às coisas que digo. Mas a verdade é que este projeto de vida advindo de uma longa história de amor, ocupa não só tempo mas também,

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wait for it

 

disponibilidade mental. Ora por disponibilidade mental leia-se aquele suspiro curioso da massa cinzenta que - teoricamente - nos ocupa o crânio. Sem tempo e sem massa cinzenta ativa devido ao cansaço da permanente atividade física/emocional/ psicológica - assim mesmo, tudo ao molho e fé em Deus - quando finalmente despejamos a real bunda no sofá a única disponibilidade que sobra é pura e simplesmente para babar. Literalmente, babar. Tipo, não me façam SEQUER mover um olho, pelamordedeus deixem-me aqui morta só um bocadinho.

Uma pessoa não se quer esforçar minimamente, e para que a leitura seja feita de forma prazerosa temos de ter TODOS os sentidos alerta, despertos e curiosos para vivermos e imaginarmos tudo aquilo que as palavras nos contam.

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(beicinho, que bonito pá)

 

Parecendo que não, dá trabalho, e uma pessoa cansada não se quer ter trabalho. Isto leva ao quê? Ao segundo assassino da leitura. Segundo na lista, mas, e sendo totalmente honesta, primeiro em termos de força.

  1. Ecrãs

Esses filhos da mãe. Como estamos cansados bora ser só e apenas espetador! Carregamos no botão e agora atirem-me informação para cima, pode ser que entretanto adormeça.

Antigamente tínhamos somente a televisão assim como televisão, lembram-se dela? Esperávamos pela hora da série, e lá mamávamos aquilo com 189 minutos de intervalos pelo meio. Já ninguém faz isto. Agora há uma verdadeira eficácia no ato de meter trampa para dentro da mona: já não perdemos tempo a ver o que não queremos. Passamos anúncios para a frente e gravamos apenas o que nos interessa. Só que esta eficácia pode ser perigosa porque acaba por fazer com que acabemos por ingerir muito mais séries/filmes/whatever do que faríamos de tivéssemos de levar com as secas de antigamente.

O verbo esperar já não se conjuga hoje em dia, e não estou certa que isso seja muito bom.

Este específico assassino da leitura não se aplica à minha pessoa que passei de adolescente devoradora de novelas e séries para um verdadeiro jejum televisivo que já conta com quase 10 anos. (Não conta o Panda, ok?)

No meu caso aplica-se o ecrã mais pequenino. Mais concretamente as redes sociais que estão enfiadas dentro do ecrã pequenino. Valha-me Nossa Senhora da Literatura, a quantidade de tempo que perco só a passar o dedinho para ver… nada! Fico com vontade de me levantar e desatar ao estalo a mim mesma. Não sei porque faço isto, juro, mas a verdade é que faço, e muito mais do que queria.

Maneiras que quando não estamos no mood casal que deitou os filhos e agora quer largar prosa noite dentro com vinho e velas, em vez de me deitar a ler um livro, ou então só a dormir, pronto, resolvo tomar a imbecil decisão de ir "só" dar uma espreitadela no facebook e instagram.

A prova disto é que neste fim de semana partimos rumo a Castelo de Vide, um campo daqueles tão verdadeiros que nem rede de telemóvel tem, quanto mais internet.

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(quem mora no campo, viaja para o campo. <3)

 

Fomos nós e respetiva ninhada de terroristas, e casal cunhados, com respetiva prole de três crianças. E apesar das 5 crianças, das refeições, das conversas à lareira, dos passeios e mergulhos no rio, saltos à fogueira e coelhinhos de chocolate escondidos, aqui a je mandou-se a um livro que já há muito tempo queria reler com a devida atenção, COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ. Viram isto? TIVE TEMPO!

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E esta, heim? Facadas no peito, sou uma besta.

 

Acabei de assassinar assim à bruta o primeiro assassino que mencionei. Não são as crianças que me impedem de ler. É preguiça mental que é viciante e o tempo que aplico a olhar para a porcaria do telemóvel.

Posto isto, impus a mim mesma um controlo neste vício. Ainda para mais agora recebo alertas que me avisam o tempo que passei em cada rede. (medo.)

Voltem livros, vinde à mamã que vos ama de paixão e promete dar-vos toda atenção que merecem. Preciso de vós, estou a ficar vazia, por isso vinde e encham-me a alma de sabedoria e imaginação!

Estou a reler este:

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(que violência de escrita tremenda, chego a ficar enjoada)

E vocês? 

O desafio de educar (II)

16.04.19, Ana sem saltos

Prova dos diabos, 'migos, é o que vos digo. Não me canso de dizer que esta coisa de lançar no planeta terra seres bestiais, tem o seu se quê de quase diabólico. E isto porquê?
Primeiro, porque o mundo não é suficientemente perfeito para eles. Aliás, na verdade, o mundo é uma valente m##*@, a partir do momento que eles nascem ganhamos uma noção assustadora do assustador que é o mundo. Devia ser todo almofadado, feito de núvens de algodão doce e Gandis em cada esquina a proclamar saberdoria, paz e amor.

Este amor desmedido tem um problema gravíssimo. O discernimento mental, puft, desaparece, ficamos seres cegos e alheios da realidade.

A propósito, vi uma entrevista com o (ENORME) Ricardo Araújo Pereira, e ele às tantas diz que o segredo do sucesso (no caso da entrevista falava-se no humor, mas creio que se aplica em tudo), é termos consciência que somos ridículos.

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Isto é sabedoria pura.

 

É este o primeiro passo para uma caminhada honesta pela vida fora.

Ora na mater/paternidade, tendemos a, como dizer isto... exacerbar qualidades e menosprezar defeitos.


- Opá, viste o meu menino? Coisa mailinda, olha como ele com 10 anos acerta tão bem com o garfo na boca... Sou mesmo uma mãe fantástica.

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#coraçãoaosestoiros.


_ É perfeitamente normal que ele com 8 anos, não compreenda que não pode simplesmente ter tudo que existe no supermercado, estes pontapés não só são aceitáveis, como, aliás, são saudáveis e necessários. É apenas ele a desbravar-se, a autoconhecer-se. Que orgulho, o meu menino a trabalhar o seu inner side.

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<3 Somos perfeitos atrasados mentais quando se trata de falarmos/pensarmos nos nossos filhos, é bom que tenhamos consciência disso.

 

Ou a melhor das melhores:

- Filho meu JAMAIS dormirá na minha cama, a não ser, claro, que seja meu filho.


Nessa mesma entrevista, falou-se a determinada altura de uma parábola em que uma mocha sai de casa à noite e pede ao leão faminto que não lhe devore as crias - lindas de morrer e sozinhas no ninho - enquanto ela vai caçar ratos. O leão diz-lhe que sim senhora, vá em paz sodona coruja, mas quando ela volta está tudo feito num frangalho.
_ Tão, pá? Pedi-te para não comeres as minhas crias!
E o leão a cuspir penas responde,
_ Tu falaste em crias lindas de morrer, por isso só comi dois franguitos depenados horrorosos.


Ora eu não quero que as minhas crias sejam devoradas por leões, ainda que saiba perfeitamente que são lindos de morrer, crianças mais prezadas e magnificas alguma vez produzidas na história da humanidade.

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iu no uat ai min?


Pronto, isto para dizer o quê?


Na minha extensa caminhada de séculos na maternidade, posso afirmar-vos que a parte mais complicada de gerir é a linha que separa a empatia do mimo excessivo, a agressividade da disciplina, enfim, é termos capacidade de lhes dar uma visão realista de si mesmos. Sem elogiar de mais - levando-os a considerarem-se Ronaldos apenas porque acertam com o pé na bola, depois sofrem evidentes desilusões quando são observados por outros que não os (estúpidos) dos pais - sem criticar em demasia - levando-os a criarem complexos e a desenvolverem uma autoestima cheia de buracos e lacunas (temo a falta de confiança como vampiro teme o alho).


Engraçado, enquanto escrevo isto, e eu sou mulher para ter a cabeça num permanente vendaval, tudo desorganizado tipo gaveta das faturas - sinto subitamente um aperto no peito daqueles a sério, valha-me Deus estarei eu a fazer bem?


Aliás, digam-me, ajudem-me, TENHAM A BONDADE DE ME AUXILIAR, É HUMANAMENTE POSSÍVEL fazer isto bem????????

 

Atentem ao buraco negro

11.04.19, Ana sem saltos

Uma pessoa à espera disto:

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E sai-me isto:

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Que tremenda desilusão.

Tirando isso, enfim, eu percebo é um marco histórico, e os cientistas devem estar eufóricos. No entanto - talvez devido a uma dosagem maior de empatia humana fico cheia de limitações intelectuais - custa-me entender os milhões que devem ter sido aplicados naquele mega telescópio capaz de detetar uma laranja na lua, com tanta gente a morrer à fome. Mas isso não interessa nada.

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(O meu lado naife.)


Ontem falamos lá em casa deste fenómeno aos miúdos, e é delicioso ver as reações deles. Tentar explicar um buraco que suga tudo lá para dentro transformando até a noção de tempo, é tipo, tentar explicar o amanhã ao meu mainovo.
_ Hoje é amanhã?
_ Não Manuel. Hoje é hoje, amanhã é amanhã. O amanhã vem depois de acordares.
Acorda e antes de abrir a pestana em condições.
_ MÃE, HOJE É AMANHÃ!
_ Não...
_ MENTIU-ME
_ Hum... Bom, agora hoje é hoje mas ontem, hoje era ama... deixa lá, queres gomas?

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(meu pequeno furibundo)

Tirando isso, depois de perguntas maravilhosas o assunto lá ficou arrumado, e foi cada um às suas tarefas antes de dormir. Deitamos a criançada, e o meu Einstein mais velho que é um valente perguntador, chama-me 15 vezes. Que quer água. E o buraco será grande ou pequeno (atenção a quem perguntas isso filho). Que a janela está mal fechada. Até vir a derradeira questão:
_ Oh mãe.. e se cairmos num buraco negro?


<3


Isto fez-me lembrar do pânico que senti quando descobri nas aulas que as estrelas morriam. Que o sol, um dia, ia morrer.
COMASSIM? E DEPOIS? E SE FOR AMANHÃ? E DOI? E AGORA, EXPLIQUEM-ME COMO DURMO NO ALTO DOS MEUS 8 ANOS SABENDO QUE MAIS DIA MENOS DIA ALGUÉM DESLIGA O INTERRUPTOR LÁ EM CIMA DEIXANDO-NOS NUMA INFINITA E EXPLOSIVA ESCURIDÃO?????? PORQUE É QUE ME OBRIGASTE A NASCER, MÃE??? PORQUÊ????

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Isto de os ver com medos é bipolar. Por um lado, são eles a ganharem consciência da vida, da morte, do próprio medo. O que é bonito, sim senhor. Mas também é horrível.

Temo ferozmente o dia em que eles deixem de acreditar em fadas.

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Injustiças

09.04.19, Ana sem saltos

Olá a todos, sejam muito bem-vindos. Como se pode ver, sou mulher ainda viva, apesar do temporal que nos sova Portugal, da inundação que o meu pequeno recém-nascido fez lá em casa, e de uma dor de cabeça monumental.

Tudo na paz do senhor.

Despite all that, aqui estou eu pronta a expor-vos mais uma vicissitude.
Hoje mandaram-me este belíssimo vídeo por wastup:

(não consigo inseri-lo no post maneiras que é favor clicar aqui)

Foi coisa para me deixar a rebolar no chão a rir à gargalhada por sete horas e meia, de repente vi-me de pulôver azul ou lá o que é aquilo, pronta para arrear uma merecida sova no adónis meu marido.

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(DSCUPPA?????)


É por estas e por outras que me recuso a por este corpinho ilusoriamente bonito em praias cheias de modelos cantés e escolho sempre a praia do povão que tem a senhora gorda a aviar frango aos filhos, são só vantagens. Para já os meus também comem de borla, nunca lhes resistem aos olhinhos de gato das botas e lá acabam por lhes ceder uma perna ou uma asita a cada um. Depois, filhos, tenho a garantia que A deusa lá do sítio SOU EU e que o adónis está entretido só e apenas a olhar... para moi.
Para o defensores da lavagem à vista, caluda já. Isso é tudo muito bonito, que é, mas SÓ se os dois membros do casal o podem fazer. O que não se aplica aqui ao je, que sou uma morcega diurna. Não vejo um elefante em pontas a mais de três metros de mim, por isso de nada me vale passear-me em praias cheias de Ronaldos a exibir os bíceps se eu apenas vejo massas amarelas que podem muito bem ser dunas. Ou plástico. Ou uma foca.
Como não é justo o senhor meu marido andar todo regalado a mirar Irinas enquanto eu tenho apenas vislumbres de sombras e um ego na lama, temos pena, mas não há cá espreitadelas a glúteo alheio.

Sou contra, não aceito, sou cega, mas não sou estupida.

Em abril águas... oh diabo

05.04.19, Ana sem saltos

Atenção, não sou nenhuma inconsciente, ok? Eu sei que o país está perto de uma seca severa, que as barragens estão a morrer de sede, sei de tudo isso.

Também já li que é preciso que chova o dobro do normalmente chovível neste mês para que se reverta este caminho sequinho que se tem vindo a galgar nos últimos meses.

Mesmo sabendo de tudo isso, e sou eu apenas uma granita pindérica num soberbo deserto, preciso de falar sobre o efeito desta chuva em mim, ainda para mais, acompanhada deste sopro glaciar que me faz tremer o osso todo o santo dia.

Odeio isto. Passemos à contabilização dos dramas.

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(Vamos a isso!)

Drama 1: A ROUPA

Eu sou doméstica assumida, inundada por um milhão de pequenos afazeres que me atiram num destino jamais totalmente imaculado e sempre inacabado. Ora de todos os afazeres domésticos que uma pobre princesa tem de fazer diariamente, a roupa é aquele que ocupa o lugar de topo nos meus ódios de estimação. Nunca consigo ver o fundo do cesto da roupa suja, tenho sempre uma máquina por estender, outra por apanhar e outra ainda por dobrar. É um ciclo interminável este que me persegue, e quando vem a maldita chuva esta linha de montagem sempre em atraso explode de vez. COMO É QUE AS PESSOAS SECAM ROUPA QUANDO CHOVE???????

Então e quando andamos ali num, ai espera que está sol, vou estender este meio milhão de meias minúsculas, ai, não te precipites, então e se chove, calma mulher,  já passaram 3 horas, não choveu, olha o sol, BORA, LÁ VOU EU. Uma mulher manda-se ao estendal com todas as forças, meia hora ali peúga a peúga, voltamos para casa e subitamente desata a chover?

E nós ali à janela. A ver a roupa que estava lavada, toda sovada por vento, pinheiros, caruma e chuva com pólen, a destruir-nos anos e anos de suor.

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Dor na alma, é o que vos digo. 

 

Drama 2: FILHOS EM CASA

Quanto a vocês não sei, mas eu tenho um problema muito sério quando os meus filhos não podem por a patinha na rua. Ficam completamente alucinados, parece que mamaram ali 5 cogumelos mágicos cada um, totalmente descontrolados, à bulha, à pancada, e em permanente concurso "Bora ver quem suja esta porra toda mais rápido". A minha casa que é pequena fica do tamanho de uma casca de caracol com uma equipa inteira de rugby da Nova Zelândia aos urros lá dentro.

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(plasticinas no chão, cereais dentro da cama, slime no sofá, HAKA!)

 

Fico louca com a loucura deles enclausurados, meus bichinhos selvagens <3.

 

Drama 3: A ROTA DO DEMÓNIO

Leia-se, a voltinha aqui da chauffeur sem saltos para apanha a criançada. O trânsito que se acumula até aqui nos confins do campo, as carroças arrastam-se e os tratores vão de 4 piscas ligados, o autocarro que para de 3,5m em 3,5... Tudo empena. Depois saímos a correr do carro, pisamos uma bodega de uma poça de 3 metros de profundidade que estava ali manhosamente escondida, já se sabe que o chapéu de chuva é um bem nunca presente quando necessário, tipo batom do cieiro, e então lá vamos nós a patinar a correr de escola em escola. E depois vimos com eles. Que arrastam o passo, não percebem a noção de PRESSA, pisam lama, demoram séculos a sentarem-se no carro, e eu ali gelada a levar com poderosas gotas a 4 graus costas a dentro, com vontade de cagar em tudo sentar-me no chão de braços cruzados, amuada e chorar a esperar que tudo passe.

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(p'ra mim chega, ok? um gajo tem limites)

 

Drama 4: TEM PIADA

Os dramas com a chuva, só existem porque... temos filhos. De facto, a ideia de estar de rob de chambre de cetim, à beira da lareira a ler um livro ao som de Chopim enquanto o verniz das unhas dos pés seca parece-me uma ideia deliciosa.... Espera lá...

 

Terapia das palavras

03.04.19, Ana sem saltos

Se calhar isto é um fenómeno só meu, mas há palavras que eu amo de paixão, têm poderes sobrenaturais em mim. Não vos acontece? Dizer uma palavra em específico e sentirem-se absolutamente enormes e eruditos e transcendentes? Tipo:

. Reclame

Epá... O que dizer sobre esta palavra? É magnífica. Digam-na alto. Re-cla-me. Enfase no "e", atenção, não é conjugar o verbo reclamar. É mesmo spot publicitário em nobre vintage. Amo.

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(eu a dizer réclame)

. Alarve

Assim com a boca aberta ALAAARVE. Que maravilha, a sério... parece que acabei de enfardar uma feijoada transmontana.

(É assim que não engordo bitches, de nada, cá para vos ajudar)

. Telefonia

Para já o meu pai sempre me chamou labrega por chamar "rádio" ao aparelho que transmite, lá está, programas de rádio. Maneiras que proferir a palavra telefonia sempre me fez sentir assim parte de uma casta mais elevada, daquelas que só dão um beijinho e dizem possidónio e sófá.

Ainda que não tenha onde cair morta, mas em bom, sempre em bom.

. Palavrões assim no geral, esvaziam-me a alma de raivas e outros cancros que tal, quais yoga quais quê! Excepto um, mas não vou detalhar que este blogue ainda não tem audiências suficientes para eu soltar o taxista que mora em mim.

A propósito do item anterior, o meu filho mais velho deu-me uma lição de charme descomunal.

(outra que amo. DES-CO-MU-NAL,  digo-a e sinto-me automaticamente trajada de Gucci a tomar champanhe em flute de cristal em frente à Torre Eiffel. Mesmo que esteja enfiada no Continente de Lourel à caça das promoções do WC Pato).

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(oh, céus, deverei levar o de aromas marinhos? ou antes os florias? Dúvidas... a minha vida são só dúvidas)

Ora então, depois de um bate bocas no carro,

quem diz é que é, és tu, não tu é que és, hãhã eu disse primeiro, nãnã, eu é que disse,

a criança mergulha-me subitamente num estado de fúria com o irmão, e eu a guiar a ver a coisa a evoluir sem poder distribuir lambadas para acalmar os ânimos, já temendo o pior, até se virar para ele com os punhos cerrados e olhos marejados de lágrimas dizendo com um tipo de enfâse, como dizer isto, eloquente, que eu não lhe conhecia: 

ÉS PA-TÉ-TI-CO.

E eu fiquei tipo, wow, sim sanhor, isto é que é meter um gajo no lugar sem javardices, mas que classe.

Mas a quem é que tu sairás fo@£§-se? 

É que nem dava para contrapor, estão ver? Tipo, NÃO CHAMES PATÉTICO AO, COMO É QUE ELE SE CHAMA MESMO? Não senhores, pôs-se silêncio no automóvel (outra <3), alguém no seu perfeito juízo diz isto?

Calou-me a mim e ao irmão que não percebeu de todo o que ele disse mas achou que era comida.

 

Perfeita imperfeição

02.04.19, Ana sem saltos

Falava com uma grande amiga minha, num daqueles raros momentos em que empandeiramos os filhos a outrem para um momento nosso - devidamente carregado de jolas, claro está - sobre a falácia disto das redes sociais.

Nos últimos anos, houve evolução supersónica nos telemóveis. Passaram a ser pequenas janelas para o mundo e cada vez menos telemóveis (quem é que hoje em dia faz chamadas? Com os Watsups, messengers, etc? Aliás, e quando mandamos uma mensagem e a outra pessoa tem a audácia de ligar de volta em vez de escrever???).

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Se por um lado é verdade que este acesso via impressão digital a toda a informação do mundo atualizada ao segundo, nos dá uma visão mais genérica sobre o que se passa além das nossas pequenas fronteiras, por outro, também é verdade que estamos cada vez mais "enjaulados" nesta ilusão de liberdade. Quem é que quando se esquece do telemóvel sente que deixou em casa um coisa tão importante como, sei lá, um rim?

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Bom, para começar, e para não estar aqui a passar uma imagem de falsa puritana, eu me assumo como consumidora ávida de redes sociais. Chega ali a roçar o vício. Há um lado que, honestamente, eu encaro como positivo. Acabamos por estar mais próximos de mais pessoas (por exemplo, na minha anormalmente soberba família, caso não existissem as redes sociais, creio que ninguém saberia que eu já tinha passado dos 17 anos. Muito menos saberiam que já sou mãe de dois seres fenomenais a cavalgar a passos largos para ser avó). Mas também acontece, se não lutarmos contra esta ilusão de proximidade, um distanciamento real das pessoas. Já vimos a última fotografia de viagem daquele amigo, até comentamos e ele respondeu.

Contacto social: check.

Para além disso, e é aqui que me parece que se encontram os maiores perigos, há uma adoração/veneração/aspiração verdadeiramente frenética de uma falsa felicidade, que não só é ilusória,

(a sério? todos os dias de manhã há um brunch a estoirar de proteínas, numa cozinha capa de revista, para depois se seguir para um PT para um treino à beira mar, e logo depois uma pequena sessão de spa? E as crianças estão impecáveis - como assim NUNCA há um bocado de ranho amarelo a sair-lhes do nariz?? - e os pais também, e agora a próxima viagem, e compra, e mercado, e, e, e.)

como nos isola numa redoma de vidro, alheios ao poder de um scroll perante verdadeiras catástrofes humanas. Tornamo-nos insensíveis, o nosso lado humano dissipa-se nesta "competição" de likes. A imagem de uma criança faminta passa por debaixo do nosso dedo para pararmos antes naquele "hit" do momento, da bloguer, ou influencer, que, se calhar, está a ter um dia de merda, ainda não tomou banho com as crianças aos guinchos no carro, mas, evidentemente, não vai postar isso.

Por de trás de todas as coisas bonitas que postamos nas redes - nós e os outros - estão vidas reais, estão mães cansadas, estão casas desarrumadas, está uma vida tão boa como a nossa.

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(atrás da câmara que captou esta bela paisagem instagramável logo pela matina - legenda "mornig view" - está uma mulher de roupão e avental - o chamado dueto imbatível do sexy -  aos berros enquanto sacode os lençóis das camas DESPACHA-TE, VESTE-TE LARGA O TEU IRMÃO, NÃO DEITES CEREAIS NO CHÃO, NÃO VÊS QUE ACABEI DE ASPIRAR, MAS NINGUÉM ME RESPEITA, FAZES FAVOR DE FAZER XIXI PARA DEEEEENTRO DA RETRETE??????????)

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(real life)

Sabermos isto é a chave para se "sobreviver" a este culto ao belo likável. Façamos também, de tempos a tempos, uma lavagem cerebral e humanizemo-nos. Ser feliz é nossa obrigação perante esta sorte aleatória de aqui estarmos vivos e saudáveis, mas faz parte, também, estarmos triste, ou termos dias menos bons. E não há nenhum mal nisso.

Agora vou aviar faturas, que a minha vida não é isto.