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Saltos sem altos

Saltos sem altos

Post para mulheres

31.07.19, Ana sem saltos

Debandada masculina, pf, que se vai falar de TPM.

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Nós mulheres, e feminismos à parte, devíamos ser glorificadas assim ao nível do divino, com hinos e tudo porque, caramba, esta condição que não se escolhe tem imenso que se lhe diga.

TPM é o clímax da dor de alma feminina. Não falo só o desconforto físico, isso é penuts, lembremo-nos que damos à luz, produzimos VIDA nas entranhas, ok? Estou a falar da moinha sentimental que, segundo consta, não atinge a todas.

A natureza tem favoritismos, e eu acho isso mal. Adiante.

Eu sofro. Mas eu sofro mesmo. Já sou mulher dada ao drama, como já terá deduzido quem me lê, e o que esta condição feminina me traz é, digamos, um potenciador de drama para o nível do trágico. Suponhamos por breves instantes que aqui a ana sem saltos acabou de limpar a cozinha. Como estou assim, leia-se, introspetivóbucólicódeprimida, no telefone está a tocar para aí o requiem de Mozart. A minha alma divaga entre o que acontecerá a tanto lixo que porduzimos, será que os meus filhos vão ser felizes, e a pena profunda que sinto por me ter esquecido de por sal no arroz. Tira-se o avental, que eu sou doméstica à antiga, e nisto cai a esfregona no chão. A música está no seu clímax, o planeta vai afogar-se em lixo, vamos todos andar de máscara sem comida nem água, os meus filhos não vão ser felizes porque eu não pus sal no arroz, e eu lanço-me em camara lenta feita diva na cama banhada em lágrima.

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Por ser uma pescada desmemoriada, no momento em que estou a viver esta dor de alma lancinante, NUNCA tenho discernimento para identificar a causa. Mas nunca mesmo, é aflitivo. Todo o santo mês lá se repete esta angústia, ai deus do céu que coisa bonita esta despedida do sol, porque me faz chorar tamanha beleza, e o mundo, para onde caminha, e eu, QUEM SOU EU?,  até vir senhor meu marido acalmar-me os nervos:

_ Estás na fase, respira mulher. 

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(para acessos de raiva dá-me pouco. Excepto se me contradizem ou se a esfregona era nova)

E é isto. Todos. Os. Meses. Até nos que estive grávida que aquilo foi tipo curso intensivo de TPM sem pausa durante 9 meses.

Não há quem me ature, eu muito menos.

Coisas que me ajudam nesta fase (não necessariamente por esta ordem):

1. Chocolate.

2. Vinho.

3. O meu amor e a sua incrível sabedoria sobre a minha pessoa.

4. Dormir.

5. Praticar a arte de me ignorar.

O ponto 5 só é possível de executar em simultâneo com o ponto 4 que acordada como ignorar tanta quantidade de existência?

 

 

Viver o agora

25.07.19, Ana sem saltos

Já repararam na dificuldade MONUMENTAL que existe no simples ato de viver o agora? Falácia grotesca esta, ora vejamos, que hipótese temos nós se não habitar no presente?

A questão é que muitas vezes o presente passa todo morninho, porque ficamos algures lá atrás a marinar e remarinar o já vivido, todos ahhhh dantes é que era! E vai na volta, quando o dantes era agora nem o estávamos a viver com todo o esplendor, se calhar enfiados num outro qualquer antes, antes desse antes.

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(um e um são dois, vezes quatro, noves fora....)

 

Também acontece o oposto, assim de repente não estou a ver ninguém que conheça , mas que os há, há.

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(ah fonix!)

E falo das boas almas que envenenam o presente com as expectativas do futuro, sempre numa correria para aquilo que virá depois. Em boa verdade, estes devoradores de presente encaixam-se em quase todos nós, por exemplo, quando trabalhamos desenfreadamente com o foco todo lá à frente na reforma. Que acontecerá (SE acontecer) quando estivermos todos carcomidos pela ansiedade e stress de uma vida ofegante e desprovida das coisas boas que achávamos que íamos gozar nessa fase. Excepções à parte, acontece tantas vezes a exptectativa transformar-se numa enorme desilusão porque, entretanto, o tempo passou, o presente virou passado, e tantas vezes acabou por ser um momento mal aproveitado, as coisas mudaram, nós também mudamos, e, convenhamos, é muito melhor carreirinhas no mar quando não estamos carregados de artroses e dores assim ao nível do corpo todo.

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É TÃO difícil conseguir um equilíbrio saudável nesta vivência, conseguir aproveitar o momento sem o saudosismo do passado, a expectativa do futuro, e ainda temperar tudo isso com alguma responsabilidade. Ás vezes sinto que a minha cabeça é um manicómio para os trezentos e oitenta eus que lá habitam, todos à batatada.

Esta fase dos meus filhos já a crescer, com todos os desafios inerentes a esse crescimento,

o que é sexy mãe?

OLHAUMAVIÃOCORDEROSA!

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e mediante as escolhas de vida que temos vindo a tomar como família, é um momento que estou a viver com a certeza que terei saudades no futuro. Aquele futuro que terá buço, deslizes na voz para agudos grotescos, borbulhas, desprezo pelos adultos, pelos pais em específico, 

EISH OLHA AÍ MÃE, BUÉ PODRE, VOU ALI CURTIR UMA NIGHT, NÃO SEI QUANDO VOLTO.

(arrepio na medula)

Enfim. É dificil, mas é possível. A base é, uma vez mais, a gratidão.

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(má kainde of thankes iu nó?)

 

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Rage Yoga - WTF OOOOMMMMMMMMM

19.07.19, Ana sem saltos

Acho muito interessante as pessoas que dizem yôga, em vez de yóga, muito embora eu diga yóga.

Achei relevante esta observação para dar início a este tema.

Então consta que há por aí um novo tipo de yoga (fica assim, leiam como o vosso intelecto vos manda, que eu sou toda por liberdade), chamado...

Rage yoga.

Achei isto o cúmulo do bombástico, e isto porque o meu pequeno pediu-me (pediu-me não fui eu que o obriguei) para fazer yoga na escola. Achei que era apenas uma coisa dita da boca para fora, tipo podes dar-me um camião de bombeiros axério, como ele me diz tantas, mas não senhores. A criança andou-me ali afinca, sem arredar pé da ideia, até que cedemos, tiramo-lo de outra atividade e lá o pusemos todo rastafari a praticar o OOOOMMMMMMMM. O engraçado disto é que ele diz que faz yoga para controlar as raivas, acho adorável a capacidade de auto-análise que esta criança tem, tomara muitos adultos afogados em ego, porque o meu anjo adorado tem alguns acessos dignos de filme. Digamos que tem alguma dificuldade em lidar com frustrações.

- A mujica é axim, papagaio louro de bico dourado, leva-me esta carta ao xeu namorado..

- Não, filho, é ao meu namorado.

- NÃNÃ. É AO XEU!

- Não Manuel, é ao....

E pronto, já arrancou para o quarto todo lixado da vida, tipo o mundo quando viu o Trump ser eleito.

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(xeu xeu xeu xeu E XEU)

Mas lá estou eu a dispersar, parece que já existe uma modalidade desta prática ancestralmente zen que, basicamente, o que é que faz? Pega no Yoga, e faz inversos infinito.

Ao invés de uma pessoa se sentar toda ela envolta de sininhos tibetanos, sons de cascatas, e uma professora sempre altamente boazona e com um auto-controlo capaz de enfurecer qualquer ser imperfeito,

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(bitch)

a malta chega, abanca e e desata aos berros, manda uns palavrões cá para fora, tudo assim numa onda de partilha libertadora - #somostodosenraivecidos. Depois de desanuviado o stress, já com a aura toda devidamente centrifugada, recebe-se não uma chavena de chá de pau virgem da amazónia apanhado em dias de vendaval, mas sim.................

uma jola.

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Epá, vénia a isto, a sério, fico entusiasmadíssima quando descubro que algo com que me identifico É SAUDÁVEL, é uma coisa tão rara de acontecer.

Estou capaz de me mandar a uma coisa destas, não que tenha assim muitas raivas, mas uma mini é sempre uma mini.

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Memórias do facebook

16.07.19, Ana sem saltos

O Facebook tem esta coisa engraçada. De vez em quando lembra-se de nos ir sacar memórias, e vai daí acabei de ficar a saber coisas tão fenomenais como:

Dia 16 de julho de 2011 o meu recém-nascido mais velho comeu a sua primeira papa.

Dia 16 de julho de 2013 o meu corpo já tinha superado a perda de um bebé e eu escrevi um pequeno conto sobre um onda pequenina que nunca chegou a ser.

Dia 16 de julho de 2014 o mundo passou a rodar mais depressa e o meu recém-nascido mais novo nasceu.

Dia 16 de julho de 2015, não vão acreditar, mas o meu recém-nascido mais novo batia palminhas na creche a ouvir os parabéns ao seu primeiro ano de vida.

Depois, estranhíssimo, a proeza repetiu-se precisamente no dia 16 de Julho de 2016, e o sacana completa-me dois anos de vida (este burgo já existia e eu escrevi sobre isso)

Em 2017, e mesmo eu dando ordens para o mundo parar IMEDIATAMENTE de rodar, já se sabe, péssima a dar ordens, maneiras que mais um ano se passou e no dia 16 de julho meu pequeno arabesco faz-me 3 anos.

No ano passado, portanto, em 2018, e também no dia 16 de Julho, vejam bem, foram 4, QUATRO anos que me fez o miúdo.

E hoje não é memória, é presente e eu amo o presente, tenho um filho que veste tamanho 7 a fazer uma mão cheia de anos. E vamos à escola, no futuro que será dentro em breve, construir mais uma memória tão bonita, a 16 de julho de 2019, de uma patada inteira de anos de vida a cantar-se os parabéns a você.

 

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Desabafos felizes

15.07.19, Ana sem saltos

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(ontem)

Vai fazer anos, o meu recém nascido, uma mão cheia deles para ser mais precisa, está de peito cheio, valha-me Deus, parece um pombo a fazer-se a uma manada de 45 pombas com o cio (as pombas têm cio?), aparece-me no quarto de manhã todo vestido, penteado de risca ao meio assim tudo acachapado, a pedir ajuda apenas para dizer qual é o sapato do pé esquerdo e qual é do direito.

[Respira mulher.]

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(o tamanho da mão <3)

Mas vai fazer, amanhã, e eu estou também num estrondo de orgulho e de  com esta coisa de já se terem passado 5 anos, assim zás tás, pimbas, toma lá um mini homem soberbo.

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(O CABELO, O BABETE, O FOFO, TUDO ALTAMENTE IMPROVÁVEL DE SER CONJUGADO)

Entretanto é Julho, certo? Lá fora continua tudo a preto e branco, eu estou constipada e sou tipo homem não apenas a mandar imperiais abaixo mas também quando estou doente, fico com a sensação que estou a ir desta para melhor, tudo me dói e eu quero caminha e chá. Só que não porque, enfim, já não tenho apenas uma mão cheia de anos, tenho centenas delas, estou idosa e cansada. O fim de semana foi de limpeza profunda, desinfeção e desincrutação de bolores das paredes, a casa brilha mas eu estou egsausta, já vos disse? eg.saus.ta. E tenho a cabeça a 4000 que isto de ter apenas um neurónio ativo dá uma trabalheira dos diabos, julgam o quê, e ainda tenho de pensar em bolos, insufláveis, convites, e conter esta espécie de angústia feliz que sinto pelo meu pequeno bizonte de três toneladas já não usar xuxa, nem fralda, nem biberão, e andar de bicileta. E fazer-me, assim do nada, cinco anos.

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(comassim, comassim, COMASSIM???)

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(aguenta coração, já nem bóias usa)

- Eu não te adoro mãe eu AMO-TE, que amo-te é mais do que adoro que é mais do que gosto. Xabias? Agora dá-me frango xe não não xou mais teu filho.

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(4 segundos depois, uma mulher espirra e é isto)

Mas não é hoje. Hoje ainda tenho direito a um bebé de 4 anos a habitar-me a casa e o corpo e a alma toda.

 

 

 

Isto de escrever

10.07.19, Ana sem saltos

A minha paixão pela escrita começou logo ali nos primórdios do a e i o u. Tive diários desde que me sei gente, onde escrevia coisas tão fabulosas como

"Querido Diário,

Hoje comi chocapic de manhã e era suposto ter sido eu a ficar com a caixa para ler mas a minha mana ficou de novo, fiquei tão zangada."

que foram evoluindo para estados de adolescência e todo o amontoado de dúvidas que é parido nessa fase, 15 toneladas de paixões sempre não correspondidas, que me faziam sentir uma Julieta à procura de um Romeu num livro de banda desenhada. Valha-me Deus, o que sofri por amor, por exemplo, por volta dos 8/10 anos tive uma paixão assolapada pelo Monstro da "Bela e o Monstro", e sabe Deus o que sofri por amar perdidamente aquilo que pura e simplesmente... não existe.

Quem nunca, não é verdade? 

Por isso, escrever foi sempre uma espécie de uma terapia, uma forma de autoconhecimento. As coisas encorporam uma realidade mais robusta e nós uma consciênciamais aguçada delas,  a partir do momento em que as traduzimos em palavras.

E isso é muito bom. E muito mau também.

A questão é que a escrita eterniza-nos, prolonga no tempo uma vivência que, caso contrário, evaporar-se-ia numa gigante ICloud sem espaço. Um sentimento, situação ou emoção passará, entretanto, na máquina liquificadora que é a vida, e as memórias puxadas só por si, trazem-nos apenas fragmentos, muitas vezes ou relativizados, ou exacerbados, ou até inventados, porque entretando ficou tudo misturado nisto que é ir acumulando traumas.

A acrescentar a toda esta incrível mixórdia, a escrita traz-me também segurança e confiança, potencia-me a imaginação, o esforço por recordar o que, às vezes, nem se quer foi vivido. Tipo Neymar com saudades do que não viveu ainda (mais valia teres ficado quieto).

E isso é muito bom. E muito mau também.

Posto isto, e como, aliás, acontece com todas as paixões, a escrita tem de ser alimentada, cuidada, estimulada, mimada. Caso contrário morre porque é muito fácil nós deixamos de saber estar apaixonados pelas nossas paixões. Li algures que não existe qualquer mérito no começo e no termino das coisas (projetos, amores, sonhos). Começar é fácil, começa-se no impulso de uma vontade, de um querer. Acabar também, mesmo que possa doer, fecha-se a porta e acaba-se. O verdadeiro valor das coisas está na sua continuidade. Está no prolongar de um desejo, no empenho que lhe dedicamos para que continue, continue, não morra, não pare, não acabe. É no saber que as coisas podem ficar difíceis, podem estar difíceis, e, ainda assim, permanecermos nelas, ficarmos nelas, perpetuarmos a sua existência em nós. Há coisa mais bonita do que observar um casal de velhinhos que se ama e cuida? Não há e é muito mais gratificante e inspirador do que dois jovens engolidos na sofreguidão faminta do nascimento de uma paixão.

Caramba que bonito, hoje estou que valha-me Deus.

Isto tudo para vos dizer que às vezes vir aqui, ou ao outro blogue, ou ao meu caderno de exercícios, ou às minhas notas no email é difícil. O retorno nem sempre vem, e eu estou longe de ser um Pessoa que escrevia por escrever, talvez precise de um ou dois shots de absinto, who knows?

Mas cá ando.

Por cá ando.

A desafiar-me a mim também, agora até pondero transformar a minha escrita em vídeos, e porque não? Um outro medo que tinha, câmaras, mas isto é só ego, ego e mais ego,  por isso, caguei nos medos, e lá vou reinventando formas de não terminar esta tão grande paixão.

 

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(por falar em alimentar paixões, então e esta que é tipo vírus e se perpetua em infinitos ao quadrado só porque sim? Eterno começar, este amor de mãe)

 

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Viver no campo vs viver na cidade

09.07.19, Ana sem saltos

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(a casa da casa do caracol <3 )

 

Pois ficai sabendo, minha gente, que esta mulher rude do campo já foi alfacinha de gema. Isto há milénios atrás, naqueles áureos tempos libertos de um amor avassalador que me faz ter forças para fazer rodar o mundo na ponta do indicador.

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#sermãe

 

A questão é que o campo foi sempre uma coisa que me esteve entranhada no ADN, e isto porque fui criança muito abençoada, neta de uma avó fenomenal que tinha uma quinta perto de Lisboa onde nos atirávamos TODOS os fins de semanas, férias e feriados. Por isso, pode dizer-se que cumpria os meus deveres de cidadã em Lisboa, mas depois era feliz na terra com paus e pinhas e cabanas e mergulhos e bicicletas e apanha de azedas até mais não.

Oh céus que saudades.

Depois a vida vai dando umas voltas, já se sabe como é, a minha avó vendeu a casa na nossa adolescência, eu, entretanto, não sei bem quando, virei mulher adulta, apaixonei-me, comecei a trabalhar e fui toda independente para uma casa de 20m2 na Graça (mas com um jardim, atente-se).

Vivemos lá nos nossos primeiros anos de casados (mudámos de casa duas vezes, mas sempre neste bairro que nos apaixonou, e na altura muito longe da euforia dos turistas), numa lua de mel prolongada, onde em 20m2 fazíamos churrascos, passeávamos por Alfama e apanhávamos bebedeiras inesquecíveis no miradouro da Graça. Foi lá que fui pedida em casamento, foi lá que passamos a ter um cão, e também foi lá que a minha barriga recebeu o primeiro dos meus dois filhos.

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(treinos para morrer de amor)

 

Quando dei por mim, já com as hormonas todas à estalada, que isto de se ter um bebé a crescer-nos por todas nós tem muito que se lhe diga, tinha uma casinha de bonecas a precisar de uma tonelada de obras comprada a hora e meia de lisboa (atendendo ao trânsito). Confesso que duvidei se gostaria, mas inebriada pela vontade do senhor meu marido, 'bora lá miúda, claro que somos capazes, imagina-os (os seis que na altura ainda achávamos que íamos ter) aqui a brincar fora e nós sentados a ouvir esta passarada toda desvairada depois de um dia de trabalho, lá me atirei de cabeça.

 

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(uns anos depois sou brutalmente assassinada de amor)

 

Por um lado, parece que foi ontem, por outro parece que foi noutra encarnação minha, antes das últimas 3.000, e a verdade é que agora só me falta mesmo a enxada na mão, não consigo se quer vislumbrar uma outra realidade diferente da que tenho.

Poder dar aos meus pequenos açambarcadores de coração a possibilidade de crescerem aqui, é algo que me agarro quando eventualmente me vou ligeiramente abaixo. São crianças saudáveis, permanentemente sujas e maioritariamente felizes, e, clichés à parte, isso é o que me faz a mim feliz.sermar4.JPG 

(#PUB SQN. Para quê bolas de futebol, ou piscina, ou trampolim, se podes rebentar com 3 frascos de ajax? Exploração infantil mas com nível.)

 

Foi muito bom e enriquecedor ser uma espécie de uma cosmopolita alcoolizada antes de ser mãe. Mas ser uma mãe campónia, valha-me Deus, é maravilhoso.

 

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Conjugar o verbo esperar

04.07.19, Ana sem saltos

Ora aqui está um gravíssimo problema da nossa sociedade contemporânea. Tudo é imediato,

aviões para outros continentes,

compras com touch ID,

facebook e instagram com lives e stories,

emails, o correio já só serve para as contas, perdeu a graça T-O-D-A.

É inacreditável, uma pessoa espirra a ver cremes na net, e três segundos depois aparece-nos um gajo de motinha a entregar-nos um, qualquer dia somos mesmo teletransportados tipo Songoku.

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(Bolas esqueci-me de comprar bananas. Madeira em três, dois, um)

 

Independentemente das vantagens inerentes, o imediatismo veio roubar-nos uma coisa tão bonita que existia no tempo dos nossos avós. E pais. E com alguma sorte na infância de alguns de nós também. E é ela a conjugação do verbo esperar. 

E o pior é que as coisas também perdem a validade neste pequeno instante, passamos a vida a correr atrás de uma atualização que passadas três milésimas de segundos JÁ NÃO É ATUAL. Já viram bem a canseira disto? 

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(olha que engraçado, eu em meme <3)

 

Roda falaciosa esta, tudo é imediato para termos mais tempo e depois vai-se a ver e não temos tempo para nada.

Aqui me assumo como a pior conjugação deste verbo. A espera é uma coisa que me eleva os níveis de stress aos píncaros de um Evereste ao quadrado. Vai desde um email que envio e ao fim de dois minutos já estou a fazer refreshs ao gmail como se não houvesse amanhã, à sopa a cozer, ponho os legumes na água e 7 minutos depois já estou a picar furiosamente as cenouras para ver se estão no ponto, bebo com enorme sacrifício litro e meio de água, e no último golo já estou a apertar a chincha a ver se a celulite emigrou para uma outra tranca qualquer bem longe da minha, enfim, estão a perceber o nível da coisa.

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(não é possível, enviei a mensagem à CINQUENTA E QUATRO SEGUNDOS! P'RA MIM CHEGA!)

 

Perdemos muito com isto porque as melhores coisas surgem na espera: a paciência é o pilar da persistência, e a persistência é o pilar do sucesso. 

Acredito que se possa trabalhar isto, talvez com hipnose, lobotomia, ou, pronto, sendo menos radical, com atividades que exercitem a calma, tipo yoga.

Maneiras que ando para aqui numa revisão mental de prioridades, de falácias pessoais, de ambições e sonhos, e acho que preciso mandar vir um guru da Índia para me auxiliar.

Quanto tempo acham que demora a chegar?

 

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Ode à saúde

01.07.19, Ana sem saltos

Em arranque de semana, deixai-me relembrar-vos que ter saudinha é coisa muntxo valiosa, é sim senhor, aliás, é a coisa mais valiosa que temos. E que, como em quase tudo na vida - porque somos pouco mais do que eternos descontentes - damos por garantida.

Posto este débito de clarividência, venho por este meio contar-vos que a minha semana arrancou com uma batelada de exames assim à lá revisão da maquinaria, e eu, que tenho fobia profunda a probabilidades, batas brancas e cheiro a éter, sou menina para tremer só com a ideia.

Depois, toda a experiência parece estar programada para ir elevando o nível de ansiedade histérica, pelo menos às mais sensíveis. A pessoa entra, tira senha, mandam esperar na salinha. E a pessoa espera. Chegada a sua vez, vai ao balcão. Entrega papelada dos médicos, valida NIF's e seguros de saúde, e agora, se não se importa, preencha aqui este questionário: antecedentes de cancro, e eu, provinda de uma família que dá sentido à palavra monumental, terei, com certeza, antecedentes de tudo e um par de botas. É ver-me a por "x's" todos tremidos, tentando controlar a ansiedade a galope por mim a cima. Sinto uma vontade desvairada de entrar ecrã da televisão a dentro e apertar o lencinho do pescoço do Goucha.

Agora atravesse, por favor, aquele corredor, e espere naquela salinha, espero sim senhora, até me chamarem pelo nome uns minutos de google depois.

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Não querendo entrar em pormenores mas entrando, caguei, digamos que parte de mim foi esmagada de forma cruel para sempre.

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Paz às suas almas, pobres meninas.

 

Ainda por cima por uma velha antipática que só me dizia "está muito tensa" "assim não me deixa fazer o meu trabalho", e eu "vá pó coiso que a coisou", mas tudo para dentro, sempre só a suar do buço. Feito o exame, fico ali a olhar para ela a ver se ela via qualquer coisa, mas ela ignora-me e manda-me embora. Lá vou eu com a esperança de ter logo ali uma ideia de qualquer coisa toda escangalhada com outras milhares de esperanças defuntas em mim. Avanço mais um corredor, curva e contra-curva, subo escadinhas, e sento-me à espera que me chamem de novo.

Google: "Morrer doi?"

Lá me chama, com a Graça de Deus Nosso Senhor. Entramos na salinha para mais uns exames, desta vez já com o médico. Esta enfermeira, mais simpática, diz-me amavelmente para aguardar "que o senhor doutor está só a ver a sua mamografia com a técnica".

Foram minutos transformados em décadas, eu a tentar ouvir o que eles diziam, sem perceber nada, o coração resolve sair-me do torax e desata-me aos estoiros na língua, carga de nervos dos diabos, e uma pessoa com uma carga de nervos apenas coberta com aquelas batas verdes descartáveis é tipo mandarem-nos de cabeça para um pedragulho de humilhação marcarados de noddy.

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O abençoado médico avança sala a dentro e pergunta-me:

_ Este exame foi só de rotina, certo?

E eu, pronto, já a ver-me condenada a todo um futuro negro e sofrido, a pensar quanto tempo me demoraria o Adónis a chegar ali para me socorrer das lágrimas e pânico, toda cheia de promessas e figas para dentro, lá lhe digo aos solavancos que sim e fecho os olhos com as unhas cravadas nas palmas das mãos.

_ Está tudo ótimo, como seria de esperar na sua idade.

POW

Para além de estar tudo ótimo,

obrigadaSenhorobrigadaSenhorobrigadaSenhorobrigadaSenhorobrigadaSenhor
obrigadaSenhorobrigadaSenhorobrigadaSenhorobrigadaSenhorobrigadaSenhor
obrigadaSenhor

SOU NOVA!

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PS: Brincadeiras à parte, pessoas que me lêem, é favor cuidarem da vossa saúde e invistam na prevenção, façam os exames quando têm de ser feitos, mesmo que sejam esquizofrénicas tipo eu. Até porque a euforia de descobrir que afinal 'TÁ TUDO BEM, TODUMUNDOAQUITÁBEM, compensa os milénios de vida que se percam com ataques de nervos. E, já agora, apreciem a maravilha que é sentirmo-nos bem e termos saúde.

 

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