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Saltos sem altos

Saltos sem altos

A importância dos professores da primária

27.03.19, Ana sem saltos

Estão a ver aquela miúda irritante de óculos cor de rosa, cadernos diários impecáveis com desenhos de corações nos cantos das páginas, que ali em agosto ficava com borboletas no estômago ao ver os primeiros reclames (reclames <3) de material escolar na televisão, e de TPC's sempre feitos a horas?

Olá, sou eu em finais de 80, 90's (#buénova).

eu pequena2.JPG

(a tentar focar uma cereja sem óculos)

As memórias são uma coisa muito engraçada, eu que sou uma perfeita dory para, basicamente, xacaber...

 

TUDO

 

(até do nome dos meus filhos me esqueço... Ohhh... ai... ohh.... TU AÍ LOIRO, LARGA IMEDIATAMENTE O TEU IRMÃO! Ou quando ligamos para marcar consultas e nos pedem a data de nascimento dos nossos filhos... e eu tenho suores no buço, ali em desespero a contar pelos dedos das mãos o tempo para trás)

 

depois tenho memórias que estão de tal forma cravadas em mim que até lhes sinto o cheiro.

Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia de aulas na primeira classe (adoro ser antiga e dizer classe), toda eu amorosa e cor de rosa, um estrondo de expectativas desde o início do verão, mochila de couro nas costas (pegas das alças magoavam-me de morte nos ombros), entrar na sala de aula, e aquele cheiro....

 

(pausa para chorar).

 

Ora foi nesse dia que conheci a professora Salete, que foi assim um marco na minha vida. A professora Salete era uma senhora nos seus 60 anos, cabelo içado em aste com meia tonelada de Elnett, sempre impecável, não me lembro alguma vez de ter visto aquele cabelo diferente, batom cor de rosa numa boca muito fininha, óculos de massa, tipo tartaruga, sempre de bata branca em contexto de sala de aula, e com uma pequena varinha de madeira na mão esquerda a que chamava de mosca. A mosca, nos tempos de hoje, levaria a senhora ao despedimento, porque era com ela que a professora Salete nos dava pequenos toques nas mãos quando estávamos desatentos. 

Calma não se enervem. Estamos noutra época com uma professora já fora de época, e, garanto-vos, foi a melhor professora da minha vida.

Betinha, certinha e com uma necessidade suprema de agradar os outros, eu desenvolvi uma verdadeira paixão pela professora Salete. Foi com ela que iniciei os primórdios do meu amor pela escrita em poesias e histórias que ela aplaudia tão entusiasticamente que me mandava ir lê-los para as outras salas de aulas (provavelmente o meu momento áureo na fama nisto da escrita), foi com ela que desemburrei do pânico pela matemática, foi com ela que se formaram as bases mais importantes para então poder vir por aí fora toda maluca até terminar uma licenciatura que me serviu para... nada. Mas isso são outros quinhentos.

Mais importante do que tudo, enquanto ela ensinava, mesmo usando a mosca de tempos a tempos, cantarolando rimas como

 

"quem multiplica cifrão por cifrão leva um safanão"

 

era próxima de nós, muito carinhosa, e uma referência fortíssima que nos dava segurança para avançar. Estes alicerces tornam a aprendizagem intuitiva e prazerosa, porque desenvolvem, acima de tudo, o gosto por aprender.

E a primária é aquele primeiro passo incrivelmente importante, para que o restante caminho possa ser feito sem grandes tropeções.

 

Vejo o mesmo agora com o meu recém nascido mais velho, que tem a audácia de estar já no segundo ano (CLASSE, caguei nos modernismos). Sendo ele bastante diferente de mim no que toca ao compromisso com a escola (tenho verdadeiras taquicardias nervosas cada vez que pego naquilo que ele chama de caderno diário e que a mim mais parece um pobre defunto sobrevivente a 5 catástrofes nucleares), a professora dele é aquela referência no que toca ao saber. Para além de eu sentir que ele gosta mesmo dela (engana-se muitas vezes e em vez de me chamar mãe, chama-me pelo nome da professora - se isto não é sinal que posso amar de paixão a senhora que ensina o meu filho, então não sei o que poderá ser), ela é também aquele argumento infalível quando existem guerras lá em casa para se fazer os trabalhos de casa:

_ Ok, não queres fazer, ótimo, essa não é uma obrigação minha, sim tua. Escreve aí no teu caderno para a professora ler amanhã: eu não fiz os trabalho de casa porque não quis. 

_PRONTO ESTÁ BEM VAMOS LÁ..... (entre lamentos baixinhos, a minha vida é horrível, isto é o meu pior dia de sempre...)

<3

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Isto só acontece, porque para ele é importante não desiludir a professora, porque gosta dela, porque a admira e quer impressionar. E sei isto porque o mesmo não acontece noutras situações em que ele não revê respeito e cuidado.

Vejo crescer no meu filho uma curiosidade por tudo, um interesse em saber mais, e até para a leitura, que ele, rapaz assumidamente de números, fazia com sacrifício, começa a dar os primeiros passos por auto iniciativa e prazer.

Acho que todos nós devemos um GIGANTE obrigada aos professores desta fase tão importante no conhecimento, que junta um início de trabalho (que só parará na reforma, no caso do meu filho, talvez pelos 105 anos, mas ele ainda não precisa de saber isto) com a infância ainda no auge, sedenta de regras e amor.

É este dueto que torna um professor uma referência na vida de uma criança que, nunca se esqueçam, será o adulto de amanhã.

 

 

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