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Saltos sem altos

Saltos sem altos

É preciso falar disto - Segurança Social, IEFP, e a audácia de sair do desemprego

26.02.19, Ana sem saltos

Aviso: Conteúdo para maiores de idade, a minha pessoa está numa erupção de raiva e tamanha incredulidade que pode suceder estalar algum verniz.

 

Como sabe toda esta multidão que me lê, em junho do ano passado assinei a minha carta de alforria e parti rumo a liberdade e felicidade, longe da poluição lisboeta, verdetes bancários e outras iguarias que me estavam a estragar a alma de forma quase irremediável. Como sou doida, mas só QB, não vim de mãos a abanar (ainda que não tenha vindo rica de todo), e saí com direito ao subsídio de desemprego por ano e meio - esse belíssimo direito que tem quem descontou durante 11 anos.

Aconteceu, entretanto, surgir uma hipótese de trabalho a 3 minutos de casa e das logísticas de uma mãe desesperada, sem empregada nem grandes apoios, coisa que, nestas bandas, não é de todo abundante. O contra: Iria ganhar menos do que estava a receber como desempregada.

Vai daí, liguei para a Segurança Social para saber se existira alguma medida de incentivo para masoquistas como eu.

Palminhas, havia, chama-se:

Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

(Wow, vénia a nomes pomposos).

Depois de me informar sobre o que tinha de fazer, e para ter a certeza que teria tudo tratado aquando do recebimento primeiro mês de trabalho (em janeiro), lá vou eu com contrato assinado para o Centro de Emprego de Sintra despedir-me daquela gente e candidatar-me à referida medida.

Depois de algum momento de espera, lá sou chamada.

_ Bom dia. Venho comunicar a minha aceitação de uma oferta de emprego e candidatar-me à Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

_ ...

_ ....

_.....

_ HEIN??

 

Lá explico à senhora do que se tratava a medida, divulgada no site do IEFP. Dou de barato, eu percebo que aquilo seja uma estucha de informação, por norma desatualizada ou divulgada sem aviso nem devida formação aos trezentos e oitenta milhões de funcionários públicos a atender o povão português.

Responde-me sem me olhar e como se eu fosse uma atrasada mental:

_ Oiça lá, para receber não é aqui, nós não pagamos nada a ninguém. Tem de ir à Segurança Social de Sintra.

De sobrolho franzido digo-lhe que não é isso que está indicado no site (DELES), mas ela enxota-me dali para fora cheia de pressa para aviar desempregados.

Lá vou eu para a Segurança Social de Sintra.

Conhecem?

Ora bem, tirando o facto de estar inserida num palácio lindo, mas a cair aos bocados de podre, é, de resto, um verdadeiro antro de horrores. A média de espera para se ser atendido ronda, em dias bons, QUATRO HORAS. As pessoas têm o ar mais infeliz deste mundo e os funcionários estacionaram as carroças ali à porta em 1742. Há impaciência, bebés a chorar, falta de espaço, frio, e pior que tudo, uma incompetência de bradar aos céus. Mas aqui, leia-se a meados de dezembro de 2018, eu ainda não sabia disto. Estava cheia de esperança nestas medidas sociais, cheia de tolerância para esperas, cheia de boa vontade.

Depois de espera infindável lá sou chamada.

_ Bom dia. Venho comunicar a minha aceitação de uma oferta de emprego e candidatar-me à Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

_ ...

_ ....

_.....

_ HEIN??

Lá explico à senhora do que se tratava a medida, divulgada no site do IEFP, que já tinha ido ao IEFP e que de lá me tinham escorraçado para ali. Dou mais ou menos de barato, ainda continuo com um nível de tolerância positivo, e não me importo de lhes explicar aquilo que deveriam ser eles a explicar-me A MIM. A senhora manda uns cliques no rato, mexe numa papelada e dá-me um formulário tão genérico que tanto podia ser uma declaração para pedir a manutenção de uma parte do subsídio, como também poderia perfeitamente ser uma autorização para me levarem um rim. Lá venho eu com a papelada para casa, entrego aos novos patrões para carimbarem, e no dia seguinte parto rumo a SS de Sintra, ainda cheia de boa vontade: estou a tratar das coisas com antecedência e ainda não estou a trabalhar, maneiras que tenho tempo livre para me sentar horas a fio nas instalações da SS.

Ao fim de horas sou chamada.

_ Bom dia. Venho comunicar a minha aceitação de uma oferta de emprego e candidatar-me à Medida de Incentivo à Aceitação de Ofertas de Emprego.

_ ...

_ ....

_.....

_ HEIN??

_ Está aqui o formulário que a sua colega me deu ontem.

Ela desata a aviar mais uns cliques, carimbos e rubricas, e entrega-me um papel a informar que o meu subsídio estava suspenso. Pergunto-lhe, ainda com alguma boa vontade, quando vou começar a receber.

_ Receber o quê?

Inspiro muuuuuito fundo e desato a explicar tudo outra vez. Ela rasga o papel com ar de mãezinha, que não era nada daquilo, que amor que estes cidadãos portugueses são, e manda-me escrever à mão num papel em branco uma declaração em que basicamente peço para me atribuírem o valor remanescente entre o que vou passar a receber empregada e o que estava a receber como desempregada. Ainda lhe falo do site, da medida, mas ela mantem o seu ar maternal, a olhar para mim como se eu fosse um pequeno pónei. Manda-me para casa sossegada.

Lá fui.

Constato, entretanto, que o meu subsídio foi suspenso na totalidade. 

A partir daqui a ramboiada foi total. Dezenas de telefonemas para a Segurança Social Direta, sempre com cerca de meia hora de espera até ser atendida, e cada qual com a sua informação:

. Quer era normal, que tinha de esperar (esta mania deste povão de ser impaciente na hora de receber).

. Que não sabiam o que era aquilo, melhor esperar.

. Novamente que era tudo normal que tinha de esperar.

Ao 1567º telefonema, já sem ter recebido o apoio no primeiro mês de trabalho, lá me dizem que era melhor eu ir novamente à SS onde tinha entregue a documentação ver o que se passava. Peço autorização à chefia e lá vou eu.

Cinco horas de espera amigos. CINCO FODA-SE. Isto já empregada, vale-me uma chefia amiga. Sou chamada, e explico o sucedido.

_ Ah, aqui não conseguimos ver nada, tem de ligar para a Segurança Social Direta.

_ MAS VOCÊS ESTÃO A GOZAR COMIGO???????????????

Escrevi uma reclamação à mão, volto para casa e desato a reclamar para tudo o que é site. Já não tenho tolerância, já não tenho paciência, já não tenho absolutamente porra nenhuma, só uma conta desfalcada por ter tido a audácia de concorrer a uma medida que supostamente incentiva a população a sair do desemprego. Como devem imaginar, estava mais confortável em casa, a escrever poesia à beira da lareira, com as refeições cozinhadas a tempo, miúdos apanhados cedo, e uma conta bancária mais choruda. Mas também fizeram questão de me dizer que agora, boca, se te despedes é que não tens direito a nada. Das 134 reclamações que fiz, respondem-me do IEFP a informar o que tinha de fazer, que era, basicamente, O QUE EU TINHA TENTADO FAZER PRIMEIRO, MAIS DE UM MÊS E MILHARES DE HORAS PERDIDAS ANTES.

Lá vou eu cheia de papelada para o centro de emprego (vale-me uma chefia amiga), mando um murro na mesa e peço para me fazerem aquela merda. Mandam-me para um gabinete de uma senhora muito simpática que lá me fez a candidatura, muito surpreendida com tanta incompetência.

_ Mais uns diazinhos e já não tinha direito a concorrer a isto.... - diz-me ela com carinho. 

Dizem-me, então, que o IEFP dá parecer até 15 dias úteis NO MÁXIMO. 

Até hoje, amigos. ATÉ HOJE E JÁ PASSARAM 24 DIAS úTEIS 10 HORAS, 52 MINUTOS E SEGUNDOS A CONTAR DE FORMA ASSUSTADORA!

Já liguei vinte vezes, já fizeram pedido de reforço interno, já reclamei, já fiz porra de tudo. Nada. Tenho de esperar. Mais um mês que passa sem receber o apoio.

Escrevo isto, primeiro para descarregar adrenalina, depois porque acho que esta merda tem de ser denunciada, somo nós que pagamos o salário àquela gente, não se admite esta falta de resposta e de compromisso. Ninguém é responsabilizado, o meu processo está numa gigante cloud da função pública, sem caras nem nomes para assumir as datas e compromissos.

E eu devo ser a única ET que se atreve a aceitar emprego quando poderia estar a mamar do estado sossegada em casa.

Isto revolta, descredibiliza, e faz-nos sentir completamente impotentes, sem meios para poder agir ou pedir justificações.

Aguardemos, até porque não posso fazer mais nada. Mas olhem, se alguém estiver numa situação parecida com a minha já sabem. Mantenham-se na mama do estado, que isto de ser honesto e trabalhador não compensa e sai caro. Muito caro.

 

 

 

 

 

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