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Saltos sem altos

Saltos sem altos

Nós e a nossa liberdadezinha hipócrita

25.08.16, Ana sem saltos

Penso muitas vezes na sorte que tenho, sendo mulher, por ter nascido não só na época mas no país/ cultura em que nasci.

Para nós, europeus, ocidentais, pessoas do mundo civilizado, dono dos direitos humanos, com uma história já fechada de guerras de géneros, raças e classes, parece impensável que existam ainda culturas onde o mínimo dos mínimos da dignidade humana não seja assegurado.

A sério, como é possível um homem de 50 anos poder (e dever, e exibir) casar com uma rapariga de 10?... Como pode ser isto, de uma mulher ter de pedir autorização ao marido, enfiar-se numa lona preta para poder ir comprar cebolas? E ainda ser legítimo o marido espanca-la se alguém a olha na rua?

Como pode ser isto de crianças serem chacinadas, terem a infância roubada, logo ali à nascença, só porque não tiveram a mesma sorte que eu?

Ufa, graças a Deus eu e os meus filhos estamos do lado de cá, onde posso ter este blog e, por exemplo, escrever caralho, só porque sim. E posso comprar um biquini e ir para a praia sem dar cavaco a ninguém. Tenho mesmo sorte pah, pude estudar, trabalhar, definir a carreira que bem me entender. Graças a Deus nasci aqui do lado de cá, onde todos somos livres, tão livres que podemos ter cartoons a gozar com as culturas alheias, ou com o que nos apetecer (quem não gosta não olha), porque somos todos Charlie, e ai de quem nos diga o contrário. Temos instagrams públicos e que rendem milhares com mamas e rabos e detoxs e, enfim, aquilo que bem nos entender, porque temos leis que nos asseguram essa liberdade, que de tão livre que é até pode achincalhar os outros.

Graças a Deus!

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 (#sóquenão)

 

Vergonha destas imagens, do que representam, do que me contam a mim que sou mulher, e que imagino o que sentiria se, de repente, numa qualquer praia deste meu mundinho livre, um camelo armado me mandasse despir o biquíni.

Sinto, vergonha, nojo, e repulsa. Idêntica à que sinto quando leio as notícias do lado de lá, daquele mundo estranho que combatemos porque não é livre, sobre mulheres violadas em praça pública porque tiveram a ousadia de mostrar os tornozelos.

Somos todos, sem dúvida, um belo Charlie

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