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Saltos sem altos

Saltos sem altos

Perfeita imperfeição

02.04.19, Ana sem saltos

Falava com uma grande amiga minha, num daqueles raros momentos em que empandeiramos os filhos a outrem para um momento nosso - devidamente carregado de jolas, claro está - sobre a falácia disto das redes sociais.

Nos últimos anos, houve evolução supersónica nos telemóveis. Passaram a ser pequenas janelas para o mundo e cada vez menos telemóveis (quem é que hoje em dia faz chamadas? Com os Watsups, messengers, etc? Aliás, e quando mandamos uma mensagem e a outra pessoa tem a audácia de ligar de volta em vez de escrever???).

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Se por um lado é verdade que este acesso via impressão digital a toda a informação do mundo atualizada ao segundo, nos dá uma visão mais genérica sobre o que se passa além das nossas pequenas fronteiras, por outro, também é verdade que estamos cada vez mais "enjaulados" nesta ilusão de liberdade. Quem é que quando se esquece do telemóvel sente que deixou em casa um coisa tão importante como, sei lá, um rim?

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Bom, para começar, e para não estar aqui a passar uma imagem de falsa puritana, eu me assumo como consumidora ávida de redes sociais. Chega ali a roçar o vício. Há um lado que, honestamente, eu encaro como positivo. Acabamos por estar mais próximos de mais pessoas (por exemplo, na minha anormalmente soberba família, caso não existissem as redes sociais, creio que ninguém saberia que eu já tinha passado dos 17 anos. Muito menos saberiam que já sou mãe de dois seres fenomenais a cavalgar a passos largos para ser avó). Mas também acontece, se não lutarmos contra esta ilusão de proximidade, um distanciamento real das pessoas. Já vimos a última fotografia de viagem daquele amigo, até comentamos e ele respondeu.

Contacto social: check.

Para além disso, e é aqui que me parece que se encontram os maiores perigos, há uma adoração/veneração/aspiração verdadeiramente frenética de uma falsa felicidade, que não só é ilusória,

(a sério? todos os dias de manhã há um brunch a estoirar de proteínas, numa cozinha capa de revista, para depois se seguir para um PT para um treino à beira mar, e logo depois uma pequena sessão de spa? E as crianças estão impecáveis - como assim NUNCA há um bocado de ranho amarelo a sair-lhes do nariz?? - e os pais também, e agora a próxima viagem, e compra, e mercado, e, e, e.)

como nos isola numa redoma de vidro, alheios ao poder de um scroll perante verdadeiras catástrofes humanas. Tornamo-nos insensíveis, o nosso lado humano dissipa-se nesta "competição" de likes. A imagem de uma criança faminta passa por debaixo do nosso dedo para pararmos antes naquele "hit" do momento, da bloguer, ou influencer, que, se calhar, está a ter um dia de merda, ainda não tomou banho com as crianças aos guinchos no carro, mas, evidentemente, não vai postar isso.

Por de trás de todas as coisas bonitas que postamos nas redes - nós e os outros - estão vidas reais, estão mães cansadas, estão casas desarrumadas, está uma vida tão boa como a nossa.

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(atrás da câmara que captou esta bela paisagem instagramável logo pela matina - legenda "mornig view" - está uma mulher de roupão e avental - o chamado dueto imbatível do sexy -  aos berros enquanto sacode os lençóis das camas DESPACHA-TE, VESTE-TE LARGA O TEU IRMÃO, NÃO DEITES CEREAIS NO CHÃO, NÃO VÊS QUE ACABEI DE ASPIRAR, MAS NINGUÉM ME RESPEITA, FAZES FAVOR DE FAZER XIXI PARA DEEEEENTRO DA RETRETE??????????)

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(real life)

Sabermos isto é a chave para se "sobreviver" a este culto ao belo likável. Façamos também, de tempos a tempos, uma lavagem cerebral e humanizemo-nos. Ser feliz é nossa obrigação perante esta sorte aleatória de aqui estarmos vivos e saudáveis, mas faz parte, também, estarmos triste, ou termos dias menos bons. E não há nenhum mal nisso.

Agora vou aviar faturas, que a minha vida não é isto.

 

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